Risco e recompensa

Através do meu trabalho com treinador e escritor, tento passar informações para ajudar os corredores a melhorar suas performances. Boa parte dos conselhos concentram-se em como evitar overtraining e lesões e como manter-se saudável. Preconizo o equilíbrio e recuperação. E algumas vezes estou errado.

Comecei a treinar uma maratonista de elite promissor (vamos chamá-lo de Bill), que em breve irá para o Quênia para oito semanas de treinamento em altitude acima de 2.000 metros. Ir para a altitude apresenta toda a sorte de questões interessantes sobre as respostas fisiológicas individuais. Depois de anos aprendendo como planejar um treinamento em altitude elevada, de modo que os corredores adaptem-se positivamente e não se acabem, estou razoavelmente confiante no desenvolvimento de um programa que funcionará para Bill no Quênia.

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O que acontece é que Bill terá uns 30 outros caras para treinar no Quênia, sendo que alguns deles já correram maratonas em 2:08 e têm sub-27 minutos para os 10.000 metros. Esses caras adoram fazer intervalados de 6 vezes 2 km às 6 da manhã na altitude elevada. Eles gostam de fazer 25 repetições de 1 minuto forte e 1 minuto "flutuando". Eles mal podem esperar pelos testes de 30 km para ver quem no grupo realmente está em forma. Esses caras são a definição de dedicação e firmeza. Eles também são capazes de fazer Bill cair pelo chão exaurido. 

Se eu obedecer as normas da fisiologia do exercício e boa parte dos meus conselhos habituais, poderia dizer para Bill treinar sozinho e não aventurar-se num treino disparatado com um bando de caras que vivem para correr, correram toda a vida em altitude elevada e que são mais rápidos do que ele até ao nível do mar. Porém, e aqui está o ponto, o objetivo de Bill é tornar-se o melhor corredor possível. Poderia o caminho seguro levar a um corredor cauteloso que nunca alcança todo o seu potencial? Por que ir ao Quênia e treinar sozinho? Há vantagem em treinar com os melhores e aprender com eles?

Pode ser que saibamos demais. Talvez em nossos esforços em nos mantermos saudáveis e sem lesões tenhamos ficado muito cautelosos. Se o objetivo é a excelência, sabemos demais para o nosso próprio bem?

Como no mundo dos negócios, há um sistema de risco-recompensa no treinamento. Se você treina confortavelmente, pode estar bem garantido de correr razoavelmente e manter-se saudável. Se você treinar um pouco mais forte, muito provavelmente irá correr melhor, e os riscos de lesões, doenças e overtraining irão aumentar marginalmente. Eventualmente, você alcançará o ponto no qual a elevação dos riscos em decorrência de treinar mais terão um peso maior do que a melhora provável de performance. Suspeito que temos sistematicamente superenfatizado os riscos e subestimado as recompensas. Suspeito que corremos o risco da mediocridade enraizada devido ao preconceito sistemático contra o risco.

Talvez saibamos demais. Ou talvez somente precisemos reconsiderar o equilíbrio ideal entre risco e recompensa. Se o nosso objetivo é a excelência, então talvez seja preciso um pouco menos de cautela. Talvez um método de treinamento um pouco mais agressivo com seu risco maior o ajudará a alcançar seu objetivo. Isso levanta uma pergunta fundamental: para alcançar todo o seu potencial você precisa viver impetuosamente e tomar alguns riscos?

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Bem, sim e não. A chave para o sucesso é compreender tantos os riscos quanto as recompensas potenciais. Os corredores de maior sucesso tomam riscos calculados baseados na compreensão da fisiologia e de seus corpos. Ele encontraram aquela linha estreita onde os ganhos potenciais aproximadamente se equilibram com os riscos potenciais e treinam perto desse limite. Você está treinando no limite das suas habilidades ou fica de forma segura dentro dos seus limites? Essa pergunta é igualmente relevante seja o seu objetivo uma maratona em 2:30 ou 4:00.

Se você quer alcançar todo seu potencial, precisa treina otimamente. Você não pode treinar forte apenas por gostar do treinamento duro e ter que afastar-se de competições porque está recuperando-se de lesões e overtraining ou perder tempo e esforço em treinamento ineficiente.

Para treinar otimamente você precisa de conhecimento. Para alcançar seu potencial você precisa ler tudo que puder e pegar informações com treinadores e corredores experientes. E você precisa aprender a discernir entre com gurus da corrida cujo papel é simplesmente ajudá-lo a sobreviver à sua primeira maratona e aqueles que podem ajudá-lo a abaixar mais um minuto do seu recorde pessoal.

Você também precisa de auto-conhecimento, o tipo que só pode ser obtido com anos de experiência. Você precisa saber como seu corpo provavelmente reagirá se fizer repetições de 1.200 metros hoje e 24 km amanhã quando a temperatura for de 30 graus à sombra.  

Se você encarar sua corrida com seriedade, é sua responsabilidade aprender o quanto puder sobre treinamento, recuperação, hidratação, ingestão de carboidratos, tênis de corrida e o quanto precisa de sono, e então decidir o que fazer com esse conhecimento. Se o seu objetivo é a recreação, então erre para o lado da cautela como um política de segurança para mantê-lo saudável e livre de lesões. Porém, se o seu objetivo é performance, então encontre aquela linha fina na qual seu corpo pode suportar e leve-o ao limite. 

Na busca pela excelência, você periodicamente irá ultrapassar a linha e precisará voltar atrás. Porém, com o conhecimento e experiência você alcançará seu potencial como corredor. Então Bill (e todos os corredores em busca de performance), aprenda o quanto puder sobre treinamento e sobre seu corpo. Então, vá treinar com sua versão local dos quenianos e aprenda com eles. Sempre há mais para aprender.

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Créditos:
Tradução copyright por Helio Augusto Ferreira Fontes
Texto copyright por Pete Pfitzinger
Pete Pfitzinger é fisiologista do exercício com mais de 20 anos de experiência em treinamento de atletas. Pete acredita no princípio de que cada corredor é único e que os programas de treinamento devem ser moldados de acordo com os pontos fortes e fracos de cada atleta individualmente.

Pete Pfitzinger é co-autor de dois livros de sucesso:

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