Desafio Praias e Trilhas
por Fernando Fragoso


Depois de correr quatro maratonas no período de um ano, estava procurando uma nova prova, com características diferenciadas. Nada de asfalto ou estradas. Buscava algo fora do convencional. Comecei a pesquisar na internet até descobrir o Desafio Praias e Trilhas, corrida de 82 km, em dois dias, que aconteceria em outubro, em Florianópolis (SC). Inspirada na francesa Verdon Trail Aventure, a corrida é única do gênero no Brasil. O que é uma pena, já que belezas naturais e terrenos acidentados é o que não falta em nosso país tropical. Quem acreditou e ousou organizar chama-se Carlos Duarte, também responsável pela ultramaratona Volta à Ilha. Inscrição e reserva de hotel pagas, precisava direcionar os treinos. Mas como, se eu não sabia exatamente o que encontraria pelo percurso? "É um terreno pesado, com trilhas, dunas e pedras", alertou o idealizador.

Tive três meses para mudar completamente a minha rotina de corridas. Passei a priorizar os treinos longos em asfalto, intercalando com corridas mais curtas na terra. Outra preocupação foi definir os equipamentos apropriados para o Desafio. Um tênis resistente, com solado agressivo, seria fundamental. E ainda, todo atleta deve carregar os seguintes equipamentos obrigatórios: recipiente para transportar um litro de água potável, um cobertor (ou manta) de sobrevivência, uma atadura, um apito e uma caneca, fornecida pela organização. Camiseta, bermuda e meia com tecidos que eliminam a umidade também são importantes. Resolvi correr com uma mochila de hidratação, já que assim teria onde carregar todos os itens, "sobrando" espaço para levar gel, BCAA e barra de cereais. 

A largada foi dada no sábado, dia 18, às 07:15 h, em Caieira do Ribeirão, sul da ilha, para um trecho inicial de 37 km. Alguns atletas que conheci na noite anterior, durante o briefing e jantar de massas, já haviam alertado para a dureza do trajeto. Saí na boa, como a maioria dos 120 atletas, com o objetivo de terminar a primeira etapa sem forçar, já que teria de encarar mais 45 km no dia seguinte. Trotando, falando sobre o Ironman do Havaí, que acontecia no mesmo dia, e imaginando o que teria pela frente, fui surpreendido pela primeira trilha. Mata fechada, algumas pedras, mas a adrenalina fazia a galera disparar. Era só um aquecimento. Vamos em frente, ultrapassando e sendo ultrapassado. A segunda edição do Desafio Praias e Trilhas reservaria muitas surpresas.

Lembro da primeira praia, Naufragados, tão curta, que nem deu tempo para admirar. Já escalava outra encosta de morro. Mais montanha, pedras, outra praia. Nesse ritmo extenuante, só parei no posto de abastecimento, localizado na praia Pântano do Sul. Água, isotônico, refrigerante, frutas, barra de cereais (doce e salgada), Club Social e envelope de sal. Só escolher e engolir. O cardápio foi mantido em todos os postos de apoio. Entre eles, havia sempre um posto de água e controle de tempo. O primeiro subidão é o Morro do Pântano, que leva a praia da Lagoinha do Leste. A prova começava a mostrar sua cara. Chegando na Lagoinha, depois de descer o morro de pedras feito cabrito, um visual incrível. Mais adiante, terminava a areia e começava um paredão com espinhos. Morro do Matadeiro. Para mim, esse foi o trecho mais casca grossa da competição.

Calma, concentração. Sobe e desce pela encosta do Matadeiro, com muitas pedras, sol cozinhando o corpo. O fato de estar sozinho naquele momento, sem avistar qualquer participante, também me preocupou. "Se eu me machucar ou desmaiar?". Comecei a cruzar alguns turistas em sentido oposto e, cercado pela vegetação, o sol já não minava constantemente. Nesse trecho infernal encontrei um corredor, pálido, visivelmente com problemas. Seu nome é Daniel Carvalho, também competia pela primeira vez na prova e correu em minha faixa etária (25-29 anos). Dei um gole de isotônico para o sujeito, mas eu também não estava 100%. Segui num ritmo mais moderado, acompanhado pelo Daniel, tentando administrar as forças. Tinha muita trilha desconhecida pela frente. Logo, fiquei sem água e a praia nunca que chegada. Só morro e obstáculos.

Finalmente a esperada Praia do Matadeiro. Civilização, mulher bonita caminhando na areia. Fomos direto para um barzinho comprar água. Estava meio tonto, enjoado. Bob Marley cantando, incenso aceso e eu querendo recuperar as forças, olhando para as ondas. Perdemos uns cinco minutos na parada, enchemos as mochilas com água gelada e saímos com vontade de vomitar. O que não aconteceu (ingerimos muito líquido rapidamente, somado à exaustão, é normal) e logo estávamos bem. A primeira etapa estaria completa após duas longas praias: Armação e Campeche. Saí do posto de abastecimento com o Fernando Higa, morador local, 52 anos, que disputava a prova pela segunda vez. Eu já havia acompanhado-o nas trilhas. É sempre assim, você está constantemente no vácuo ou abrindo caminho para os mesmos corredores.

Nas praias, apesar do desgaste ser menor, não é possível colocar um ritmo uniforme. Em certos trechos não dá para correr, é uma areia fofa, pesada. Dos 82 km totais do percurso, corremos metade disso, no máximo. É uma corrida de força e resistência, com todos os tipos de terreno, só faltou neve. A estratégia faz a diferença, portando não recomendo dar todo o gás no primeiro dia. Essa etapa inicial completei em 06:05:45 h. Perdi 2,5 kg. Fiz uma bela massagem, jantei, ajustei o relógio para o horário de verão, que nos roubou uma hora de sono, e fui dormir torcendo para acordar com a perna zerada. Restavam mais 45 km, do Campeche à Ponta das Canas, no extremo norte. O dia seguinte prometia.

A largada também aconteceu as 07:15 h, mas o nosso destino eram as Dunas da Joaquina. Levei cerca de 30 minutos para soltar a musculatura e chegar nos montes de areia. Daniel, o mesmo corredor que socorri no dia anterior, já estava na cola. Quando soube que eu iria escrever um texto no site e na revista Superação, foi logo dizendo: "Escreve lá, você salvou a vida de um residente de ortopedia. Eu estava apagando, se você não aparece, ia desmaiar", comentou. O primeiro costão, antes da Praia Mole, não demorou para aparecer. Pedras enormes, à beira mar, uma novidade até então. Cruzamos a Mole e a Galheta, e subimos o morro com mesmo nome, que permite enxergar a Ilha da Magia por 360 graus. Dali, despencamos para a Barra da Lagoa.

Teríamos mais um longo trecho de praia: Barra da Lagoa e Moçambique, ambas alternando corrida e caminhada no areião. O que castigou no segundo dia foi o sol. Como não estava ventando, a sensação térmica era ainda maior. Emendamos numa estrada de terra, ainda em Moçambique, para depois cruzar as Dunas do Santinho. Foi sofrido. Não têm muitas mudanças de altitude, como no sábado, mas as trilhas vão, lentamente, esgotando nossas forças. Na Praia do Santinho, estava confiante e pensava que nada me faria desistir. A companhia do Daniel, alguém para você conversar enquanto a quilometragem e as horas passam, é importante. Caso contrário, a pressão psicológica é grande. Você não sabe o que vem pela frente. "Solitário seria ainda pior", concluí. O cara vira um zumbí: só anda e corre, rumo ao desconhecido.

Na descida do Morro dos Ingleses, percebi que minha perna direita estava mais "acabada" que a esquerda. Dependendo do movimento, sentia a musculatura reclamar: vai de leve. "Não tive qualquer problema até agora. Se essa perna resolve travar, com uma cãibra ou coisa parecida, não completo a prova". Nesse momento, pensei apenas em me divertir e terminar. Só utilizava o relógio para controlar a alimentação e tomar os aminoácidos (BCAA). Mas sempre que o terreno permitia, dava uma corridinha. Após a praia, mais um costão, que levava até a Brava. Caí pela primeira e única vez. As trilhas não dão trégua. Qualquer vacilada, é tombo na certa. Escorreguei nas pedras, mas não me machuquei. A atenção é tanta que você nem curte o visual. É cabeça baixa, olho no chão.

Quando pensei que já tinha deixado para trás todos os obstáculos, subimos mais um morro. Até cipó, cordas para escalar as pedras, tinha na parada. Trilha fechada. "Vietnã é isso aqui". O Fernando, corredor que acompanhei no dia anterior, apareceu na nossa frente. Mesmo nos quilômetros finais do Desafio Praias e Trilhas encontrávamos novos terrenos. Mais subida, mais pedras, íngremes encostas. O Daniel, por sua vez, torceu o tornozelo. Bravamente, manteve o ritmo até a Ponta das Canas. Completei os 45 km em 09:22:04 h (perdi 1,5 kg), satisfeito por atingir meu objetivo. O tempo total de prova, para os 82 km, foi 15:27:49 h. A organização, Carlos Duarte e staff da Eco Floripa, está de parabéns. Aos demais organizadores de eventos, uma sugestão: que tal explorar novos conceitos de corridas? É sucesso garantido, palavra dos atletas.

"Numa prova como essa, eu acredito que todos são campeões, todos são vencedores. Não valorizo tanto esse aspecto de chegar em primeiro lugar. Isso é uma conseqüência. Eu simplesmente procuro fazer o melhor. Se isso for suficiente para chegar em primeiro, segundo, terceiro, e conseguir me sentir bem na prova, isso para mim é muito satisfatório. Como o próprio nome já diz, é um desafio. Como tudo na vida. Esse é mais um, um grande desafio para qualquer atleta", ensina o vice-campeão Vanderlei Mena Gonçalves, que já correu 225 km nas 24 Horas de Salvador. Prepare-se, ano que vem tem mais.


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Créditos:
Texto copyright © por
Fernando Fragoso.

Fernando Fragoso, 26, repórter esportivo e fotógrafo, participou de mais de 60 provas como Rally dos Sertões (97, 99 e 2000), Mitsubishi Motorsports (98 e 2000), Copa Dunas de Rally (99), Copa Vale Raid (99) e Copa Sudeste de Off Road (96, 97, 98 e 99), navegando para 12 pilotos. Também percorreu de bicicleta o litoral de Santa Catarina (94), correu a Maratona das Águas (2003), Maratona de Curitiba (2002) e Maratona de São Paulo (2002), além de cobrir as principais competições. É editor do site e sócio da RALLYBRASIL - www.rallybrasil.com.br

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