Maratona de São Paulo 2004
por Guilherme Barella


Sempre gostei de correr, mas de uns 3 anos pra cá é que treino com regularidade. No final de 2002 conheci uns malucos que faziam de tudo em matéria de esporte, desde ginástica até remo, esses malucos na qual eu faço parte hoje é o BandoSurvivors.

Em 2003 participamos de várias provas de 10 e 21 Km, mas sempre tive a vontade de correr a maratona, eu não sabia como se preparar para esse desafio. A primeira providencia foi pesquisar como as pessoas faziam.

Fiquei desanimado ao saber que seria necessário correr 6 vezes por semana e por isso deixei esse sonho de lado por achar inviável.

Ao visitar o Copacabanarunners li o relato de vários amadores que tinham superado suas dificuldades e concluído sua maratona, isso me despertou e comecei a pensar na maratona novamente.

Quando terminei a São Silvestre estava super feliz por ter realizado um sonho e naquele momento decidi que 2004 seria o ano da minha primeira maratona e estaria disposto a fazer o que fosse necessário para realizar mais esse sonho. No dia seguinte comecei os treinos, acordava às 5h da manha corria 10 Km e depois fazia ginástica ou nadava. Acho importante a pratica de outras modalidades para desenvolver certas partes do corpo que a corrida não atinge, principalmente o alongamento, quando você termina uma maratona com certeza você sente o efeito do alongamento durante os treinos: se você fez, parabéns, se não as câimbras incomodarão durante a corrida e após também.

De terça a sábado corria entre 10 e 12 Km revezando entre o asfalto e areia, procure variar de piso. No domingo eu fazia o longão: estava acostumado a correr 21 Km aos domingos e aos poucos fui aumentando a quilometragem até atingir 35 Km. Através do longão eu tinha um parâmetro de como estava indo e isso permitia eu fazer os ajustes durante a semana. Quero dizer que na segunda eu descansava mesmo só dormia. No começo eu precisei de 2 dias de descanso porque eu não estava acostumado a correr todos os dias, é fundamental "escutar" o corpo, não confunda com preguiça e falta de determinação, são coisas bem diferentes.

Eu tinha uma dúvida, se estrearia na Maratona das Águas ou na de SP, acabei escolhendo SP porque é sempre bom correr em SP, é mais perto da minha cidade, e a organização da prova é de nível internacional.

Após 4 meses de treinos lá estava eu a 1 semana da maratona, todos nós comentávamos e ficávamos na expectativa de como seria no dia. Por mais que você tente pensar em outros assuntos parecia que a maratona "dominava" a mente. Fiz meu último treino na terça-feira e resolvi descansar até o dia da prova. No sábado resolvi pegar minha esposa e filha para fazer uma caminhada na praia logo pela manhã com a intenção de aliviar a tensão e desviar um pouco meus pensamentos para outros assuntos. Após o almoço tive a idéia de passar a tarde toda na feira Fitness Brasil que estava acontecendo no SESC aqui de Santos, foi a primeira vez na semana que tinha esquecido da corrida.Ao chegar em casa resolvi logo jantar. Já passava das 22h e eu não conseguia dormir e sentia o corpo quente, devo ter apagado às 23h.

O despertador tocou as 4:30h e junto com ele a minha fome de vitória, principalmente a vontade de finalizar a prova inteira, agora não tinha mais jeito era colocar tudo o que tinha feito na prática.Fui tomar café: um pratão de macarrão (devo dizer que é muito estranho comer macarrão sem molho logo pela manhã), pão, suco de caju (vitamina C) e depois foi se vestir e pegar o ônibus da turma da CORREBAS. Durante a viagem todo mundo permaneceu dormindo ou relaxando, quando passamos por Diadema percebemos que o dia seria ensolarado e quente; estávamos torcendo por um dia típico de outono com temperatura por volta de 17°C, já que durante a semana essa tinha sido a temperatura, mas sempre acontece algo que não se espera.

Finalmente chegamos no Ibirapuera, já havia um monte de gente, o parque estava "cheirando" a maratona e a partir deste momento ficava cada vez mais difícil controlar a ansiedade de largar, enquanto esse momento não chegava foi necessário várias idas ao banheiro para "aliviar" a tensão. Fiz um leve alongamento de 15 minutos e fiz questão de não trotar para não ficar aquecido o suficiente e sair como um louco e quebrar, foi necessário mentalizar que estaria correndo 42 Km e não 10 Km.

Estava certo, assim que foi dado o tiro de canhão, muita gente saiu feito louco, nós optamos por uma saída muito moderada e controlando a vontade de acelerar, o relógio indicava 9:00h e 28°C o que mostrou que a prova iria ser mais quente do que eu pensava. Estava muito feliz e confiante, é difícil descrever o que se sente nessas horas, é um misto de emoção, realização e desafio; o importante é respirar fundo e se concentrar nos objetivos (meu objetivo era terminar a prova em 4:10: 00h sem precisar parar).No 7 Km via se alguns apressadinhos andando, recuperando o fôlego, havia muita gente nas ruas incentivando e aplaudindo. Da largada até o 13 Km meu amigo Silas foi divertindo a galera, ora brincando com o público ora contando piadas. Uma coisa estranha que me irritou por alguns quilômetros foi o fato do meu amigo Ricardo estar com um monte de moedas de R$00,5 na sua pochete e fazer um barulho de chocalho chato pra caramba, mas depois eu não ouvia mais.

No 13 Km começou um retão que ia até o Parque Villa-Lobos, foi um trecho que precisou de muita concentração, parecia que não terminava nunca, e o pior era ter que retornar por esse retão para pegar a ponte da cidade universitária, haja paciência. Após esse trecho chato estávamos entrando na USP e no final da raia olímpica ficava o 21 Km, neste momento o Júlio e Robson tinham ficado pra trás e estava só eu e o Ricardo, quando passamos pelo 21 Km desejei boa sorte ao Ricardo, sabia que a partir dali a corrida ganharia novas características, no 22 Km começa a subida da avenida politécnica uma boa subida agravada pelo sol de 30°C, já havia pessoas andando, eu procurava as poucas sombras para me poupar ao máximo, repentinamente o Ricardo falou que ia dar uma parada, pois estava sentindo umas câimbras. Continue firme a minha jornada sabendo que os próximos quilômetros seriam decisivos tendo em vista o grande número de corredores caminhando e com câimbras, tentei ignorar o que via, ouvia, simplesmente estava respirando e sentindo o meu corpo.

Apesar de estar usando gel de carboidrato com regularidade comecei a sentir os pés "presos por bolas de ferro" em torno do 25 Km, é uma sensação horrorosa e isso durou até o 30 Km quando fui obrigado a fazer minha primeira parada e caminhar alguns metros. Fui alongar um pouco, mas quando puxei o pé um pouco senti algumas câimbras e não forcei, voltei a andar até o próximo quilometro. Senti que estava inteiro e comecei a correr novamente num ritmo bem lente e fui aumentando progressivamente a medida que não havia mais sinais de cansaço e câimbras. Para minha surpresa e felicidade no 33 Km havia um Power zone (pessoas distribuindo power gel e um tipo de barra de cereal) como na maratona de NY, não havia menção de que haveria distribuição de gel nem no site da maratona nem no manual que vem no kit.

Por volta do 35 Km estava saindo da USP e a partir daí acho que foi o trecho mais tranqüilo da prova, apesar de ver pessoas caídas com câimbras e convulsão. Outro momento mágico da prova foi em frente ao Jóquei Clube onde havia moradores da região distribuindo frutas, bolachas recheadas, vaselina (por causa das assaduras) e incentivando. Lá pelo 37 Km começamos a enfrentar os túneis, é complicado ter que subir depois de tantos quilômetros percorridos (a inclinação é pior do que a da Brigadeiro Luis Antônio). Não contive o choro ao atingir o 40 Km, sabia que o final estava muito próximo e estava administrando as dores nas pernas e a ansiedade de finalizar a prova, tinha muita gente andando (lembra dos apressadinhos da largada???) e outras tentando não parar.

Finalmente estava deixando a av. República do Líbano e entrando no retão do Ibirapuera, nesses últimos 600 metros veio a minha mente o dia que eu tomei a decisão de correr a maratona, os dias que eu não queria treinar, a minha família que sempre me apóia, os amigos dos SURVIVORS, e todo aquele trajeto que estava prestes a finalizar que foi feito com muito esforço,alegria,choro,dor e principalmente satisfação. Após passar pela chegada havia realizado um sonho; sim estava com dores nas pernas e estourado, mas mesmo assim estava feliz comigo mesmo. Após a entrega do chip eles deram um ótimo lanche com isotônico. Fiquei ali na grama comendo e esperando meus amigos, foi igualmente emocionante a chegada deles. Devo dizer que não consegui fazer o tempo de 04:10:00 como planejava, acabei com 04:27:48.

Foi uma prova maravilhosa, acho que todos deveriam correr uma maratona pelo menos 1 vez na vida.

Aproveito também para agradecer a Deus, todos os SURVIVORS (Tom, Silas, Marcelo, Luis, Júlio, Robson, Ricardo), a organização da prova que foi impecável, aos moradores da região do Jóquei e ao Hélio por ceder este espaço.

Se você ainda tem duvida em correr uma maratona não tenha mais, pois se até eu consegui com certeza você também pode. Se alguém quiser trocar uma idéia mande seu e-mail para BANDOSURVIVORS@YAHOO.COM.BR . Até Curitiba!


Guilherme Barella


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Guilherme Barella - BANDOSURVIVORS@YAHOO.COM.BR

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