Maratona do Rio de Janeiro 2004
por
Ronaldo Miguel

Ronaldo divide sua experiência na Maratona do Rio de Janeiro que, apesar de amarga, lhe deixou ensinamentos positivos. 


Para falar de maratona, seja qual for, eu preciso contar como começou, e esta começou dia 21 de março de 2004. Logo após terminar a maratona das águas eu disse vou correr a do Rio num excelente tempo. Cabe lembrar que neste caso o julgamento de excelente ou bom ou mesmo péssimo é coisa super pessoal, para mim qualquer tempo abaixo de 3:20 seria excelente.

Uma coisa é querer e outra é conseguir. Queria treinar mais velocidade e diminuir um pouco a quantidade de rodagem, porém uma tal de inserção ísqueo-tibial da perna direita ditou outro futuro para mim. Pois foram 46 dias só em tratamento de fisioterapia. Depois de meio liberado, mais três semanas de reabilitação com rodagem de até 60 minutos em uma freqüência cardíaca de 50 a 60% e só então tive três semanas para os verdadeiros treinos para a maratona do Rio. Fiz um "superlongo" de 22 km e uns treinos de 10 a 15 km durante a semana.

Sabia que estava longe das minhas melhores condições, mas quem tem um resultado de 3:33' numa maratona das águas pode fazer qualquer prova sem maiores complicações. Bem... Isso pelo menos era o que eu pensava.

A largada. Pontal da barra, um belo dia de sol para veraneio nenhum botar defeito. Aliás, seria a cara do Rio de Janeiro se não fosse pleno inverno. Haja o que houver, pode ter geado no sábado ou mesmo nevado, mas no domingo da prova haverá sol e muito calor, mesmo num inverno que começou com temperaturas baixíssimas como o deste ano. Encontrei vários amigos de outras maratonas. É impressionante como na terceira maratona já reconheço corredores que rodam no mesmo ritmo que eu. Saí mais otimista que confiante, pois tinha um fantasma comigo chamado "destreinamento". Quis fazer uma prova para 3:30 hs, orgulhoso e meio prepotente, parti para vitória.

Passados os primeiros km percebi que não seria tão fácil como pensei, lá pelo 20º km veio a primeira ladeira e senti o peso nas pernas e nos pulmões. Justamente a ladeira que dias antes tinha desdenhado aqui no fórum sobre a maratona do Rio. Por ter corrido alguns segundos fora do meu planejamento, deixei o relógio ditar o ritmo. Pecando num dos meus princípios: - "quem corre é o atleta e não o relógio, por isso é o meu condicionamento que dita o ritmo e não o relógio". Aumentei o ritmo e comecei a sentir que algo não ia bem. Lá pelo 25º veio uma ladeira que sempre achei moleza, pois aqui em Resende treino em ladeiras bem mais íngremes. Esta foi outra ladeira que com muita prepotência desprezei aqui no fórum, novamente a quebradeira e uma triste constatação: -"3:30 hs, nem de bicicleta!" Ali pelo 28 km já tinha desistido de qualquer pretensão de fazer qualquer tempo, simplesmente passei a querer apenas terminar a prova. Desci a Niermayer sentindo a prova escapar das minhas mãos. Pois até ali estava conseguindo à duras penas manter um ritmo de 5'/km, estava no km 27 com 2:16'56''. Daí para frente tudo foi quebradeira. Parecia que estava com os pneus furados, 5'45'', 6'11'', 6'12'', 6'28'', 6'30''/km. 

Ao chegar no 34º km estava, no popular, aos tapas! Com 3:00'20'' de prova e 34 km percorrido resolvi, aliás, minhas pernas assumiram o comando e resolveram fazer uma breve caminhada. Aceitei com uma condição: 100 metros de caminhada e 900 metros correndo. Sempre fui contrário a fazer caminhadas em maratona por achar que foge à característica da prova, mas... Não tinha outra opção. Doce ilusão pensar que conseguiria voltar a correr. Após os 100 metros tentei voltar a correr e não consegui, resolvi caminhar até o 35º km e daí voltar a correr no ritmo que desse. Quem dera! Só doía da sola dos pés até a cintura. Um pouco mais a frente um grande amigo de maratona passando por mim falou: Vamos lá Miguel! Vamos no trotinho do jeito que der! Novamente animado, tentei correr. Ficou só na tentativa, três passadas e concluí que não tinha qualquer condição de voltar a correr. 

A hora de reconhecer a derrota. Diante do quadro que acabei de expor, andando em direção a Botafogo, comecei a avaliar: Valeria a pena cruzar a linha de chegada andando desde o 34º km? Em que estado chegaria? Quando voltaria a treinar novamente? Por fraqueza, orgulho ou lucidez decidi, vou abandonar a prova. Neste exato momento comecei a sentir vergonha de todos, parecia que estava todo mundo me olhando, eu não conseguia nem olhar para o lado. Enquanto tomava esta difícil decisão, continuava a me arrastar para frente, já estava no 37º km, quando atravessei a rua e peguei um ônibus até a chegada, onde fiz questão de não passar pelo tapete, dei a volta pela grade, entreguei o chip e aceitei a medalha que a menina me entregou. Ali na chegada via os maratonistas com aquele olhar de conquista e me senti como um penetra numa festa, ou como se eu tivesse sido expulso da festa, sinceramente foi muito amargo. A medalha ficou enrolada na própria fita azul e devidamente guardada na minha bolsa enquanto horas depois via pessoas orgulhosamente exibindo as suas penduradas no pescoço no ônibus que peguei para minha casa. Pessoas com um semblante cansado e um olhar de vencedor... Um olhar meio vago no espaço... Um olhar que já tive o prazer de exibir também.

A conclusão que chego é que valeu a pena. Valeu muito a pena. Caso eu tivesse optado por não ir diria para todos que não fui porque não quis. Agora sei que não tinha condições. A maratona agora passou a ser muito mais nobre para mim, o fato de não ter conseguido realizar a prova reavivou a grandeza da prova. Fez-me novamente por a maratona no seu grandioso lugar de prova de todos os valores. Hoje amo muito mais a maratona que antes, reconheço que estava caminhando para a prepotência e perdendo o justo respeito pela "Grande Prova". Desde aquele momento comecei a sonhar como será emocionante cruzar a linha de chegada na maratona de Curitiba, dia 21 de novembro de 2004. Até lá muito treino, alongamento, água e respeito pela Grande Prova.

Esta é a história de uma derrota sobre a qual não tenho a menor vergonha de falar e que só deixou ensinamentos positivos. 

Bons treinos e boas provas. Miguel


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Créditos:
Texto copyright © por
Ronaldo Miguel da Silva, pára-quedista do Exército, auxiliar de enfermagem do Hospital Escolar da AMAN - Resende, Rio de Janeiro - onde é paciente cativo da Ortopedia e da Fisioterapia, maratonista por desafio.

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