Maratona de Paris
por Luiz Repis


Domingo, 8 horas da manhã, Arco do Triunfo. 

Caía uma chuva fina e a temperatura estava abaixo de 8 graus. Um vento cortante tornava ainda mais fria aquela manhã de domingo tão ansiosamente esperada. Ali, próximo ao Arco do Triunfo, eu olhava aquela multidão colorida e agitada que brotava dos subterrâneos do metrô e pensava: que estranho fascínio a maratona exerce sobre as pessoas que dela participam! Como podem enfrentar o frio, o cansaço, o desconforto sem nenhuma recompensa material? Sabem que não podem vencer, mas, para aqueles seres especiais, vencer é cruzar a linha de chegada após percorrer 42.195 metros. Acho que nem Freud explica! Mas afinal, emoções não precisam de explicações científicas.

O ponto de partida não poderia ser mais significativo. Arco do Triunfo, monumento que simboliza a conquista de tantas vitórias que orgulham o povo francês. Ao caminhar em direção ao ponto de concentração que eu havia escolhido - previsão de tempo entre 3:30h e 3:45h - preocupava-me em decidir se retiraria ou não a malha que usava sob a camiseta. Será que esquentaria demais? Será que o frio iria permanecer? Decidi mantê-la e não me arrependi.

Os participantes estavam agrupados segundo as estimativas de tempo definidas na época das inscrições, sendo liderados por "pacemakers" portando balões coloridos. No meu caso, objetivo pessoal em torno de 3:40h, deveria seguir os balões azuis. E ali fiquei, aguardando a largada. Ao se aproximar o momento, foi interessante observar como os corredores se livravam das capas de chuva e dos agasalhos que os mantinham aquecidos, jogando-os para o alto e para os lados . 

Foi dada a largada! Fiquei surpreso ao ver que as pessoas próximas corriam num ritmo regular, similar ao meu e sem atropelos. Todos procuravam correr dentro do tempo programado. E assim foi, Champs Élysées, Place de La Concorde, Musée du Louvre, Notre Dame, Place de la Bastille. Tantos monumentos históricos e ainda estávamos no km 6. Eu corria num ritmo constante de 5 min por km, absolutamente seguro e concentrado, sabendo exatamente onde e como queria chegar. 

Ao me aproximar do 10o km eu ainda podia ver os balões azuis e muitas pessoas que largaram próximas a mim. Não nos falávamos, e nem era preciso, pois cada um de nós, a seu modo, deixava transparecer a alegria, a emoção e uma forte determinação de concluir a jornada.

Neste turbilhão de emoções eu pensava na família - Dag, a mulher que tantas vezes me acompanhou nestas jornadas e que agora, por força das circunstâncias estava distante, quanta falta! Cíntia, a filha que certa vez ficou intrigada com os meus longos treinamentos e perguntou: você sabia que já inventaram a roda? Júnior, o filho que adora esportes mas não se atreve a correr tanto quanto o pai. Diogo, o neto que adora brincar com as minhas medalhas. Juliany e Laura, as netas recém-nascidas que ainda não têm consciência das loucuras do avô. 

E os quilômetros iam passando! Ritmo constante. Freqüência cardíaca constante. Ingestão de líquidos a cada km. Tudo estava maravilhoso e já estávamos terminando a travessia do Bois de Vincennes, aproximando-nos da metade da corrida. Neste momento a maratona começava a fazer as primeiras vítimas, já era possível ver que alguns sentiam o esforço e começavam a entregar os pontos, caminhando tristes e decepcionados.

Mas eu continuava firme e determinado, ainda podia ver os balões azuis que marcavam o ritmo de 5 min por km. E assim passei a meia-maratona com o tempo de 1:46:45h, com uma boa folga em relação ao meu objetivo. 

E os quilômetros iam ficando! Já estávamos novamente na cidade e eu procurava avidamente localizar a Torre Eiffell, pois seria uma boa referência sobre a distância que faltava, mas ela ainda não era visível. Ainda havia muitas praças, túneis e avenidas para percorrer.

De repente, km 30 e lá estava ela, a Torre Eiffell, símbolo maior da cidade e objetivo de turistas do mundo inteiro. Agora eu sabia que faltava pouco, mas seriam os quilômetros mais difíceis.

Entramos no Bois de Bologne, km 35, eu já não via mais os balões azuis. Um claro sinal de que o ritmo havia caído, o corpo sentia o esforço, mas a mente continuava determinada a concluir o percurso no tempo planejado.

Do km 35 ao 40 foi pura "raça". Corri pensando no meu bairro, Copacabana. Faltam 6 km, é apenas uma vez e meia o calçadão de Copa. Moleza! Tantas vezes o percorri, porque não o faria agora? 

E os quilômetros iam ficando! Repentinamente, a partir do km 40 o ritmo melhorou, senti novamente as passadas firmes e determinadas, talvez por saber que a chegada estava muito próxima, meu tempo estava ótimo e meu objetivo seria atingido.

Faltam 195 metros! Quanta euforia! Ali na frente o pórtico de chegada. Atrás de mim, 42 km de garra, emoção e determinação. Foi mais um momento mágico! Um espaço tão curto e tão carregado de simbolismo, onde todas as incertezas, ansiedades e esperanças do período de preparação desfilam diante dos olhos. O corpo estava cansado, os olhos marejados de lágrimas, mas a alma estava inebriada pelas emoções vividas e pelo singular sentimento de vitória.

E assim cruzei a linha de chegada! 


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Créditos:
Texto copyright © por
Luiz Repis - luizrepis@cobra.com.br 

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