Maratona de Curitiba 2004
por Ronaldo Miguel da Silva


Curitiba é, e pelo que parece, continuará sendo a melhor maratona do Brasil. Dizem também que é a mais difícil... - Conversa! Tem ladeiras? Sim! Na do Rio tem muito sol, em Sampa tem muitos túneis e por ai vai uma enorme variedade de itens que tornam cada maratona única na história de quem as corre. 

Novamente estava em Curitiba, com novos propósitos e novos desafios. Porém desta vez com um pensamento bem definido sobre maratonas. Correr todas as provas do Brasil e quem sabe no futuro alguma no exterior. Correr sempre, este era o meu pensamento.

Na véspera da prova fui ao parque que fica bem próximo da chegada, chamado Passeio Público, para nós maratonista importa saber que ali é o km 40 para 41. Passei pelos caminhos onde no ano passado vivi a alegria de ver meu sonho se realizando e ali comecei a mentalizar a minha chegada, orgulhoso e sob os aplausos da sempre participante platéia da arquibancada. Sentei na arquibancada pensei: "amanhã estarei por aqui lutando contra os 42.195 metros e desta vez também contra o relógio, que por vezes seus ponteiros fazem questão de correr mais que minhas as pernas". Assim a véspera da prova se foi, jantar de massas, excelente. Muita água, bom descanso. Tudo pronto e testado, número, chip, tênis de corrida, meias, short, camiseta, protetor solar, vaselina, boné, exceed, unhas aparadas, enfim, tudo pronto e ao lado da cama. Não dei chance para nenhuma surpresa.

Como de costume acordei antes da hora e vi que tentar dormir seria mais estressante que ficar simplesmente deitado esperando a hora de levantar. Uma hora antes da largada, fui para o local de concentração, com a companhia do JCAngst, um bom amigo aqui do fórum, que como eu optou por ficar num hotel a uns dois km da largada, distância que serviu para descontrair e aquecer para a maratona.

Após um bom alongamento e umas fotos, estava pronto para partir. Desejei boa sorte para todos e me despedi do amigo JCAngst. Como ele estava determinado a correr num ritmo mais devagar que o meu, desejei-lhe boa sorte e fui mais para frente. Até que fim a largada... Parti como quem parte para encarar um leão, armado só com a coragem e o próprio corpo. O clima estava ótimo, 17 graus, sem sol e sem chuva. Uma verdadeira dádiva. O público aplaudindo, não pela conquista da chegada e sim pelo simples fato de aceitar o desafio. E lá fui para os 42.195 metros.

Saí dentro do que estava esperando, 4'30''. Com as quebras do percurso acabaria sub 3:20', acabaria...

Lá pelo km 6 sou alcançado pelo amigo JCAngst, com certeza não fui eu que diminuí e sim ele que não resistiu à tentação de correr mais rápido que o seu propósito. Quando o vi do meu lado achei ótimo pela companhia, mas perigoso para ele pelo ritmo que estávamos, passamos pelos 10º km com 45'46''. Neste momento fiquei numa situação difícil. Queria dizer que ele deveria diminuir, mas não sabia como poderia parecer. Não gostaria de subestimar sua capacidade dizendo que deveria ir mais lento que eu, porém também não gostaria de negar uma ajuda. Com um clima muito bom, água, frutas, isotônicos, esponjas molhada para refrescar e ainda uma população ansiosa por ajudar, pessoas oferecendo água, banda de música e sobre tudo uma maravilhosa família oferecendo lenço descartável, fomos em frente num ritmo forte. Sinceramente, correr pelas ruas de Curitiba me dá a impressão que as pessoas estão verdadeiramente torcendo por cada um de nós. Aguardando o momento certo para ajuda-lo, se surgisse, não poderia desperdiçar, disfarçadamente ia observando o amigo à procura de qualquer sinal de cansaço. Lá pelo 20º km o meu companheiro de prova demonstrou que estava meio cansado e que só estava esperando o meio da prova para sair do meu ritmo e seguir mais devagar. Foi quando falei para ele que deveria correr só com o corpo, deixei claro que o km 21 não quer dizer nada, que não é o relógio que corre, falei com clareza: "escuta teu corpo! Segue o ritmo do corpo e esquece o relógio!". Dali para frente parti sozinho. Desci um viaduto e cheguei na "reeeeeeeeeta" do Boqueirão, caminho tranqüilo para quem já conhece e se preparou mentalmente para a prova. Vi algumas pessoas reclamando, para mim foi algo muito natural, por isso aconselho a todos estudar o percurso antes da prova. Sobe, desce, subidona, descidinha, geralmente depois de uma subida vem uma descida, mas em Curitiba as vezes vem é outra subida, e vamos nós correndo sempre para a linha de chegada, um passo atrás do outro e vamos em frente! Ah! Lá está o Passeio Público, a chegada já está logo ali depois de alguns milhares de centímetros. Nesta hora cada centímetro tem seu preço, cada passo tem um valor próprio e é com muita vontade que continuamos os passos finais. Cruzei a linha de chegada fazendo aviãozinho e coração em homenagem ao atleta do ano VANDERLEI CORDEIRO DE LIMA. Alcancei minha meta de mais uma maratona, sem andar, num tempo acima do que queria (3:23'37''), mas satisfeito por poder repetir o que o soldado Feidhipedes fez há 2.494 anos atrás e que lhe custou a vida.

Acabei a prova um trapo, tonto, com ânsias de vômito, atordoado e sem força para ver meus amigos chegando, Ivo Cantor, JCAngst e tantos outros que colecionei neste curto mas intenso ano de maratonas. No caminho para o hotel, enquanto descansava de outra sessão de vômitos encontrei o JCAngst e como se ele tivesse alguma culpa fui logo disparando: "- Não corro mas maratona!!!".

Percebi que já cheguei onde queria, aliás, passei do sonho de correr uma maratona. Corri quatro, completei três. Fica como saldo algumas lesões que deixaram seqüelas, amigos que deixarão saudades, fortíssimas emoções. A certeza de que posso me superar todos os dias da minha vida, repetindo a frase do maratonista Ricardo Serrazes, "cresci como pessoa". Devo continuar correndo 10 e 21km, para mim, um degrau abaixo dos imortais maratonistas. A de Curitiba para mim foi a última, porém a vida continua através de outras "maratonas" e de novos desafios.

Para os amigos maratonistas - Bons treinos e boas provas. Miguel. 


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Créditos:
Texto copyright © por Ronaldo Miguel da Silva, pára-quedista do Exército, técnico de enfermagem do Hospital Escolar da AMAN - Resende, Rio de Janeiro.

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