Maratona de Curitiba 2004
por Marcus Vinícius Rodrigues de Mesquita


Não me lembro bem como, sei que caí meio de pára-quedas no Copacabanarunners.net. Foi em maio de 2004... Havia parado de fumar cigarros há um ano e meio, mais ou menos, e desde então começado a correr. Na verdade caminhar, mas com o tempo comecei a correr uns 2km no parque da cidade, umas três vezes por semana. Lembro exatamente do dia em que consegui fechar uma volta inteira no parque: 3,5km!!! Não havia distância maior que pudesse ambicionar. Uma volta inteira correndo no parque Mãe Bonifácia! INTEIRA!!! Vejam bem: apenas trotava pra manter a forma... Nem era muito fã de esportes. Foi então que pesquisando sobre esportes na net fui parar no Copacabanarunners. Virei freguês! Um monte de artigos interessantíssimos sobre alimentação, treinamento, equipamentos, fórum, etc... Comecei a treinar mais seriamente e de tanto ler os relatos de pessoas que, como eu, eram esportistas totalmente amadores, e que haviam completado uma maratona, comecei a sonhar com a possibilidade... Será?!? Mas se ele pôde porque eu não posso??? Então olhei o calendário de maratonas do site e bingo: Maratona Ecológica de Curitiba em novembro / 2004!!! Eu sou um fã de carteirinha de Curitiba! Adoro a capital paranaense! Seria uma ótima oportunidade de matar a saudade... E depois teria uns 6 meses para treinar! 

Comecei a aumentar minha km semanal... Quando assustei estava correndo 7km por dia, todos os dias menos finais de semana. Até tentei fazer o programa de treinamento de 15 semanas de Benji Durden (disponível no site). Tentei! Furava sempre o treinamento programado para o dia. Então me concentrei em fazer uma rodagem semanal que, para mim, era considerável: 65 a 75km. Corria uma média de 10km, 5 vezes por semana e nos domingos fazia um longão (média de 20km). Até um mês antes da prova em Curitiba ainda tinha dúvidas se iria mesmo. Além de a maior distância que havia corrido até então ser um longão de 26km, eu ainda estava a mais ou menos 2000km de Curitiba. Pensava comigo: “Não é muito trabalho viajar 30 horas de ônibus, gastar com a inscrição na maratona, hotel, comida, pra correr 42km, pegar ônibus de volta, viajar 30 horas, 2000km de ônibus, tudo isso em uns poucos dias?”. Sem dúvida era muito trabalho, mas a pergunta correta era: ”Vale a pena???”. Bem, se vocês estão lendo este relato agora é porque já adivinharam a resposta.

Sai de Cuiabá quarta-feira, dia 17/11, 16:00, chegando em Curitiba no dia seguinte lá pelas 18:00. Fiquei hospedado na casa de uma grande amiga (Valeu Rô!!!) e assim economizei o do hotel. Melhor ainda: a casa dela ficava a apenas uns 3km do Centro Cívico, onde seria a largada e chegada da maratona. Após dois dias de vários passeios culturais (show do Nada Surf, peça no teatro Guairá), um trotinho bem leve no sábado de manhã (para reconhecimento do local da largada), lá estava eu no jantar de massas em companhia da Roseli. O jantar estava muito bom, com grande variedade de massas a escolha. Não nos demoramos muito no Jóckei Club, pois havia planejado dormir cedo pra descansar. O “cedo” foi lá pelas 23:30...

Domingo, 21/11/2004, 05:30! Tocou o despertador do celular. Segundos depois o despertador do rádio-relógio que peguei emprestado da Roseli. Olhei pela janela e estava um frio de doer. “Bom... Inventou, agora agüenta!!!”, pensei comigo mesmo. Após me vestir e colocar o Polar, sai em jejum direto para o Centro Cívico. Estava muito frio! Uns 12 a 15ºC. Entendam: eu moro em Cuiabá, onde faz 40ºC na sombra e você pode até fritar ovo no asfalto (é verdade)!!! Já no caminho encontrei um companheiro que também ia participar da corrida e já fomos conversando como se nos conhecêssemos a muito tempo. Um abraço pra você Ademilson!

Chegamos ao local da largada faltando uns 5 minutos pra largada das mulheres. Assistimos a largada delas e em seguida foi a vez dos cadeirantes. Um pouco de alongamento, e estava no “grid” de largada junto com os outros competidores. Contagem regressiva e lá fomos nós... Larguei na boa, sem apavoramento, tinha em mente o tempo que pretendia terminar a prova: 4 horas e meia. Se mantivesse um ritmo de 6’/km não teria como errar. Mas a prova é totalmente diferente dos treinos... Impossível se segurar e não empolgar. Além disso, com o clima agradável (frio pra mim...) a tendência era acelerar. Seguindo conselhos dos amigos do fórum, é sempre melhor correr com alguém mais experiente... Então, fui emparelhando com alguns corredores e trocava idéias rapidamente pra saber qual tempo haviam planejado concluir. Depois de algumas tentativas frustradas, comecei a correr ao lado de um senhor de seus 50 anos, porém em ótima forma e inclusive com uniforme de equipe patrocinada pela Petrobrás. Seu nome era Joase. Já havia corrido treze maratonas, completando algumas e parando outras. Seu objetivo era um tempo menor que 4 horas. Estávamos num ritmo de 5’/km e ele disse que pretendia seguir neste ritmo até o final. Fiquei meio preocupado pois sempre havia treinado em um ritmo não superior a 6’/km. Estávamos no km 9 e tinha muito chão pela frente. Conferi o que marcava o Polar: 78% de minha freqüência cardíaca máxima. Estava tudo sobre controle. Pensei comigo: “Vou com ele neste ritmo enquanto der, depois diminuo...”. Decisão mais que acertada: seu Joase é de Curitiba, bom de papo e corredor experiente. Todo o tempo incentivava outros corredores que andavam ou paravam: “Vamos que dá! Não pára não! Bora que a gente chega! Vai no trotinho que dá!!!”, gritava ele... Diversos curitibanos que assistiam a corrida o cumprimentavam e chamavam-no pelo nome. Foi ótimo tê-lo acompanhado, pois pude aprender muito: “Maratona é muito mais cabeça que pernas!”, filosofava ele ao meu lado... Lá pelo km 15 passou a nos acompanhar seu Cruz, um outro senhor de seus 50 anos, também corredor e amigo do seu Joase. Fomos os três juntos num ritmo que foi diminuindo de 5’/km (lá pelo km 9) para 5’30”/km (lá pelo km 34). Após o km 34, contrariando todas minhas expectativas, eu estava inteiro, e meus companheiros começavam a demonstrar sinais de cansaço. Nosso ritmo havia despencado para 6’/km e então seu Joase disse: “Não acelera agora não que ainda falta muito pro final, mas se chegarmos ao km 38 e você ainda estiver bem assim, vai embora! Acelera mesmo, porque se você não quebrou até então, não quebra mais!”. Segui à risca as sábias palavras de seu Joase e lá pelo km 38, após uma ladeira cruzando um viaduto (próximo a estação rodoferroviária) onde o ritmo de todos havia diminuído ainda mais, me despedi de meus “mentores” acelerando para um ritmo de 5’/km. Faltava apenas 6km e eu estava realmente muito bem. Cansado, é claro, porém em ótimas condições pra completar minha primeira maratona. Mal sabia o que me aguardava...

No último posto de água, um pouco antes de entrar no Passeio Público, estava eu com o braço estendido para pegar o copo de um escoteiro, quando vem por trás um corredor num ritmo muito acelerado, atropelou meu braço, jogando meu copo d’água no chão e me empurrou pro lado. “Ah, ordinário!!!!”, o sangue me subiu o cabeça e só pensava em ir à forra... Depois de correr 40km, qualquer pequena coisa é suficiente pra te deixar estressado. Acelerei mais ainda e fiquei na cola do mal-educado, seguindo-o de perto, uns 4 metros atrás. Quando estava no meio do Passeio Público, estufei o peito e acelerei, ultrapassando-o num ritmo muito rápido (uns 4’30”/km), com toda pose que fui capaz de fazer. Mantive este ritmo por um minuto e pouco pra me distanciar dele e reduzi em seguida, voltando para os 5’/km mais ou menos na saída do parque. Quando percebi, ele já estava me ultrapassando! Não deixei barato e acelerei de novo, ficando “grudado” atrás do sujeito! Quando estávamos contornando o Memorial Árabe, pra pegar a reta final (ainda faltando aproximadamente 1km pra chegada), o ultrapassei novamente, e ele, “indignado”, acelerou também!!! Ficamos lado a lado correndo desesperadamente como se estivéssemos numa corrida de 100m rasos e não numa maratona!!! Alguns segundos depois percebi o disparate que estava fazendo e pensei comigo: “Mais 10 segundos correndo assim e tenho um ataque cardíaco!!!”. Joguei “ponto morto” e diminui o ritmo. Ele, que devia estar pensando o mesmo que eu, também diminuiu imediatamente seu ritmo, e permaneceu atrás de mim, a uns 3 metros de distância. Depois de menos de 1 minuto, tempo suficiente para que ele se recuperasse do “tiro”, faltando ainda uns 500m para a chegada, lá veio ele! Ultrapassou-me e seguiu num ritmo que meu bom senso me impediu de tentar!!! “Mais vale terminar inteiro do que ser socorrido pelos paramédicos...”, pensei comigo e fiquei contemplando meu “adversário” acelerar admiravelmente. Nesse instante, todo “ódio” que havia sentido por ele no momento em que me “atropelou” já havia se dissipado e na verdade estava era grato por ele ter me dado esse “incentivo” final. Ao invés de me sentir derrotado, me senti imensamente feliz por ter tido saúde e fôlego para depois de correr 41km, ainda “apostar corrida” com um desconhecido. 

Cruzei a linha de chegada, com a sensação de um Vanderlei Cordeiro de Lima completando a maratona na Grécia: não ganhei ouro, mas cheguei com dignidade!!! 03 horas 47 minutos e 14 segundos!!! Nada mal pra quem estava planejando terminar em 04 horas e meia! Passei pelas massagistas que estavam todas ocupadas e vi o “meu adversário” aguardando pra ser atendido. Me aproximei, e cumprimentei-o: “Valeu o pega! Parabéns!!!”. Ele olhou pra mim, sorriu e respondeu: “Rapaz! Você está bem mesmo, hein?!? Muito bom esse peguinha no final!!!”. Estávamos os dois, totalmente quebrados, um trapo mesmo (pelo menos eu estava...), e faltou disposição e energia pra continuar o bate-papo... Na verdade até esqueci de perguntar seu nome. Mas caso venha a ler esse relato, deixo aqui meu muito obrigado por me fazer correr além do que imaginava ser possível!!! Apanhei meu kit lanche e sentei na grama enquanto aguardava uma massagista desocupar pra me atender... Logo em seguida encontrei Ademilson, que havia chego uns 10 minutos antes. Ele me cumprimentou com um abraço, feliz da vida de ter completado também sua primeira maratona. Na saída da área isolada para os atletas, encontrei Roseli que tinha ficado de vir para tirar fotos de minha chegada e fomos embora pra sua casa e o merecido repouso.

Não tenho dúvida que acertei quando decidi topar este “desafio” incrível que é correr uma maratona! Com certeza pretendo correr outras e Curitiba está nos meus planos de 2005. Agradeço a todos amigos do fórum: sem vocês eu jamais teria esta idéia insana de correr 42.195m!!!

Bons treinos, força e perseverança!!! 


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Créditos:
Texto copyright © por Marcus Vinícius Rodrigues de Mesquita

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