Maratona de Curitiba 2004
por José Carlos Angst


Curitiba, 20/11/2004, Jockey Club, entrega do kit aos atletas. Entreguei meu documento de identidade e o comprovante de inscrição para a jovem que usava um computador para a consulta e confirmação das inscrições, para minha surpresa ela me encaminhou para outro atendente porque não encontrou o meu nome. Estava esperando ser atendido quando fui levemente puxado pelo braço, era a jovem, tinha feito nova consulta e encontrado o meu nome na relação de atletas da prova. Foi o acento. É esqueci de acentuar José na consulta me disse ela. Já tinha começado a duvidar da organização, seria um desastre viajar de tão longe para assistir a maratona, isto porque meu nome não estava cadastrado, mas foi só o acento, ainda bem.

Com minha mochila e o kit na mão, me dirigia para a saída quando vi dois ônibus vazios logo na saída. Fiquei sabendo que um deles passaria pelos hotéis e o outro faria um "tour" pela cidade, uma gentileza para os atletas da organização da maratona. Olhei no relógio, 09:32hs, a diária nos hotéis geralmente são contadas a partir do meio-dia, decidi aproveitar o passeio pela cidade, foi uma boa escolha. Exatamente 10:00hs o ônibus sai, não com um guia mas com duas guias turísticas a descrever o trajeto. Passageiros vindos de vários estados, os mais entusiasmados pareciam ser os baianos. O "tour" foi do jardim botânico (parque, flores), passou pelo museu Oscar Niemeyer, praça do relógio, Shopping, Rua 24 Horas, Centro, estádio de futebol do Atlético-PR. Depois de conhecer o gramado perfeito deste belo estádio, resolvi seguir para o hotel e não continuei no ônibus com os demais, agradeci a nossa guia pelas informações de como chegar ao hotel e ao belo passeio.

Táxi, Dez minutos, não mais que isso, e estou em frente ao hotel. A esta altura, confesso que estava meio apreensivo, no ônibus, a nossa guia me informou que o hotel ficava perto da rodoviária e que era meio perigoso sair à noite sozinho naquela região da cidade. Perguntei ao atendente se havia um hóspede chamado Miguel, ele abriu o livro, olhou, folheou e respondeu que não. Falei que provavelmente estava em um grupo de maratonistas que iriam disputar a prova no domingo, bingo, ele olhou novamente e encontrou. Mais tarde comentei com o Miguel a respeito da localização do hotel, ele riu e me falou que tinha saído para um passeio nas redondezas na noite anterior e a região era tranqüila. A propósito o hotel é simples mas muito bom, gostei do café da manhã, como haviam combinado, foi servido bem cedo.

Acomodado no hotel, sai e almocei peixe, arroz, batata frita e salda verde, fiz uma breve caminhada e retornei ao hotel para ler os jornais que havia comprado. À tarde tocou o telefone, era o Miguel, estava na portaria, desci e finalmente conheci pessoalmente o Miguel do forum copacabanarunners, gente fina, após os cumprimentos ficamos conversando em frente o hotel, em poucos minutos o Miguel cumprimentou um maratonista que passava, não estou lembrado o seu nome, é organizador de corridas de rua, que se juntou a nós, estávamos conversando, logicamente sobre corridas, quando se aproximou mais um corredor perguntando se entre nós havia alguém do forum copacabanarunners, nos apresentamos, era o py1zt também do forum, que além de corredor é radioamador, e nos contou que foi por isso que escolheu este pseudônimo.

A tarde passou rápido, após esta longa conversa, fomos ao jantar de massas. Fui acompanhando o Miguel e o pessoal que estava com ele, achei ótimo porque não conheço muito bem a cidade e provavelmente encontraria dificuldades sozinho. No jockey club, antes do jantar, ainda deu tempo para checar alguns produtos na feira, o Miguel comprou um Mizuno. O vendedor recebeu o cheque sem pedir os documentos de praxe, falou que confia nos atletas e que raramente recebe cheque se fundos, isto é um voto de confiança.

O jantar de massas. Imagine um restaurante com um buffet de massas variadas, saladas, refrigerantes, música ao vivo, e um pessoal bom de conversa. Pois é, o jantar de massas da maratona de Curitiba tem tudo isto e ainda tem exposição de medalhas, troféus e fotos e transporte de volta ao hotel. 

Manhã do dia 21 de Novembro de 2004, 05:00hs, café da manhã, melancia, mamão, pão, suco, café e um pouco de leite. Filtro solar, hipogloss, pochete com exceed (4-usei 3) e documentos, decidi não levar o boné estava nublado. Eram 05:30hs, tocou o telefone, era o Miguel: -E aí vamos correr? - é claro.

Saímos do hotel e fomos em direção a largada, quase todos estavam saindo de abrigo, eu estava pronto para a corrida e não sentia frio, a conversa durante a caminhada me ajudou a relaxar.

Local da largada, vários atletas aquecendo, serviço de som dando informações e colocando todos no clima da prova, a temperatura era baixa estava nublado mas aquele ambiente parecia ter brilho próprio. 

Eu poderia ter relacionado pelo menos uma centena de motivos para não participar desta maratona, mas estou aqui, e satisfeito.

Aqueci durante uns vinte minutos correndo na pista do parque, alonguei um pouco, fui ao banheiro, assisti a largada feminina e me dirigi ao local da largada. Encontrei o Miguel já aquecendo, aqueci mais um pouco, deu tempo de assistir a passagem das primeiras colocadas no feminino que faziam a passagem dos 6 km em pouco mais de vinte minutos. 

Exatamente às 7:30hs foi dada a largada, não larguei, esperei alguns segundos para conseguir me movimentar, decidi acionar o meu cronômetro exatamente em cima do tapete da largada, foi rápido, cerca de 1:30min. 

As duas arquibancadas me fizeram lembrar dos desfiles de 7 de setembro da época do primário, éramos as atrações do dia. 

Estava correndo envolvido no clima prova, comecei a pensar no meu desafio particular, corria e não tinha nem reparado nas placas de quilometragem quando ouvi novamente o serviço de som e percebi que estávamos próximos do km 6, na passagem pela largada. A minha intenção de cronometrar cada quilometro só daqui pra frente, pensei em fazer isso a partir da passagem, olhei no cronômetro da prova, 0:28:33, estava um pouco abaixo de 5min/km, achei adequado.

Não sei porque não dei a mínima para o relógio, precisava concentração e no entanto olhava tudo em volta e me dizia, esta é a prova, estou na maratona, estou correndo, quando treinava sempre pensava no dia da prova, nos quilômetros percorridos, na concentração que precisaria, mas ... 

Logo em seguida, num posto de água, quase passei sem perceber, era o Miguel. E aí campeão! - Ele me olhou, apesar da surpresa de ambos, nossos ritmos de corrida eram para ser muito diferentes, ele estava certo, eu estava equivocado. Comentou: -Que bom encontrar você por aqui. Tenho a impressão que se não tivesse encontrado o Miguel, continuaria num ritmo mais forte e quebraria novamente no km 30, a partir daí tive um ritmo de referência, apesar de ser forte, até nos aproximarmos do km 20 eu ainda não sentia nenhum desgaste. Neste percurso seguimos conversando, ao encontrarmos uma banda, acho que da polícia militar, tocando cidade maravilhosa, aplaudi e comentei com o Miguel que era uma homenagem direta a ele como carioca. Foi logo depois disso que decidi diminuir o ritmo, eu estava indo rápido demais, conversamos mais um pouco, agradeço todas as recomendações do Miguel que foram muito úteis, mais um posto de água, diminui, e o Miguel seguiu em frente.

Senti que foi uma decisão acertada, seguia acompanhando as placas com a quilometragem, ainda lembrava de Dourados-MS, queria passar bem pelo km 30, foram 23 ...28, um pouco de ansiedade e cansaço, neste trecho acompanhei por algum tempo um maratonista carioca, salva-vidas, que se aproximou de mim e comentou as dificuldades que estava encontrando, respiração, enjôo, enfim, estava mal, pretendia terminar em 2:40 mas àquela altura talvez terminar, ouvi, falei que a maratona é dia, às vezes bom às vezes ruim, não sei se foi um bom comentário, logo em seguida ele parou, mas acredito que a conversa nos ajudou de alguma maneira.

Km 30, é aqui..., passei..., estou cansado, meu ritmo? - Não sei porque, mas não olhei mais o cronômetro. Sei que o ritmo está fraco porque passei por uma mulher fantasiada com um pássaro na cabeça e não estou me distanciando, ela continua bem próxima. No posto de água peguei dois copos, estava com mais sede do que antes, apelei para o terceiro exceed, desceu bem com a àgua, km 32, km 33, km 34, km 35, percebi que muitos corredores paravam brevemente para um alongamento e seguiam, fiz a mesma coisa, logo depois do km 36, fui engolido por cerca de uns vinte corredores que vinham num mesmo ritmo, aí percebi que apesar de ainda estar correndo eu estava muito lento, tinha que tomar outra decisão, aumentar o ritmo, difícil, decidi me manter no ritmo dos corredores que estavam próximos e assim fui, km 38, faltam 4, estava realmente cansado mas sabia que não iria parar, um avanço se comparado com a minha primeira maratona. A esta altura já estava acompanhando meu cronometro há algum tempo, 3:33:27, tenho 26 minutos para chegar antes das quatro horas, é o bastante, segui um grupo de corredores através do parque, saída do parque virada à direita, estava lá, a mesma rua da largada, a medida que corria começava ficar mais nítida a imagem da arquibancada, do corredor de flores na chegada, o que eu senti neste trecho foi realmente algo inusitado, me sentia mais leve, esqueci o cansaço, cheguei a desejar que aquele momento e aquela sensação se prolongasse por mais tempo, além da linha de chegada. 

Tinha ensaiado alguma coisa para fazer na chegada, esqueci de tudo, só lembrei de beijar minha aliança,e erguer o braço direito apontando para o céu, uma forma de agradecer a minha esposa e a Deus.

3:53:52 no meu cronômetro, 3:54:54 no da prova, eis aqui um atleta amador cheio de satisfação.

Senti que estava muito cansado quando a moça que me deu a medalha me chamou para tirar o chip, nem lembrava dele, neste momento de novo a excelente organização, sentei enquanto um escoteiro com muita agilidade desamarrava o meu tênis, retirava o kit e em seguida amarrava novamente, perfeito. Peguei o lanche com bolo, maçã, água de coco, regrigerante, sanduiche e banana, é , excelente lanche, aliás todo o abastecimento de água, isotônico (4 se não me engano) e esponjas durante a prova foi muito bom, passei pela área de massagem, todos massagistas ocupados, paciência na próxima eu chego mais cedo, sentei na grama e devorei o lanchinho, delícia! 

Ainda assisti a chegada de alguns corredores, entre eles, um de 79 anos, segundo o locutor o inscrito mais idoso.

Eta! Cabra bom sô! - Foi o que eu ouvi de um sujeito da platéia, o que concordei plenamente. 
Passaram por mim dois corredores que estavam no mesmo hotel, estavam indo embora, aproveitei a carona. Na caminhada de volta, senti o desgaste da prova, as pernas cansadas, a medalha no pescoço parecia ter triplicado de peso, a conversa ajudava a distrair e o hotel estava perto. No caminho encontramos novamente o Miguel, acho que estava pegando um táxi mas desistiu, estava um pouco abatido. Não muito longe dali encontramos um garoto, ao lado do pai, com um berimbau, o Miguel disparou: - Sabe tocar este instrumento garoto? -O garoto falou timidamente que estava aprendendo. E ele não sabia que iria aprender mais um pouco, ali mesmo, o Miguel começo a tocar com propriedade o berimbau, indicou a melhor maneira de guardá-lo e conservá-lo. Nos despedimos deles e seguimos a caminhada, agora sei que estou acompanhando um mestre de capoeira.

Na chegada ao hotel, me despedi do Miguel, acertei tudo, e segui para a minha viagem de volta. 

Maratona é uma coisa espetacular! Talvez um pouco difícil de explicar para quem ainda não correu. Acabei de completar a segunda e já me vi fazendo a planilha para próxima, se tudo correr bem, Porto Alegre 2005. 


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Créditos:
Texto copyright © por José Carlos Angst

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