Maratona de São Paulo 2002
por Fernando Fragoso

Fernando Fragoso, 25 anos, navegador e diretor da RALLYBRASIL, conta como foi realizar o seu sonho, que por vários anos parecia impossível, de completar uma maratona.


Nunca imaginei que fosse tão fácil. Sim, correr os 42 km da maratona. Por vários anos, a idéia de superar a distância me parecia impossível. Comecei a correr com o objetivo de perder alguns quilos. O Henry estava envolvido no treinamento para o Ironman e eu havia lido uma matéria na Revista Trip sobre o Ultraman (10 km de natação, 420 km de ciclismo e 84 km de corrida). Em maio, após disputar algumas provas de 10 km, resolvi participar da Maratona de São Paulo. Sem desculpa. Com 25 anos, precisava de mais movimento. 

Com chuva ou sol, lá estava eu, correndo 10 km, 15 km ou 20 km (os treinos mais longos que fiz). Ao todo foram quatro meses de treinamento e alimentação controlada. Nada de gordura, doces, bebidas, chocolates ou refrigerantes. Foram 600 km suando e muitas vontades não realizadas. Essa é a fase mais difícil: a dedicação, a disciplina. É preciso querer fazer. Aos poucos, com a melhora da performance, o treinamento vai se tornando uma rotina agradável. Até vicia. 

Convidei meu irmão para participar. Mesmo sem quilometragem na canela, Osmar, 21, aceitou cheio de disposição. Comecei a procurar informações na internet e lí vários depoimentos de corredores. Muitos se referiam a prova como “um monstro”, “o desafio”. A história/lenda da maratona diz que Pheidíppides sacrificou sua vida percorrendo 40 km entre as cidades de Maratona e Atenas, na Grécia. O corredor anunciou a vitória grega sobre os persas e caiu morto, em 490 a.c. Com certeza, o primeiro passo é acreditar que você consegue. Depois vem o treinamento, a alimentação e o descanso (sono). 

Num sábado gelado, retiramos os kits - número, chip, camiseta e regulamento - no Ginásio do Ibirapuera. Com o mapa da prova, defini os intervalos que deveríamos comer, beber e tomar os comprimidos de
BCAA (aminoácidos). Estava visivelmente feliz. Confiante. Mais macarrão, despertador marcando 6 horas e cama. Será que vai chover? 

Depois de um bom café da manhã, seguimos para o Pacaembú, local da largada. Alongamento e mentalização. O tiro de canhão que me assustou, era o sinal pra começar a correr. Sol e céu azul em Sampa. Os primeiros 8 km segui com meu irmão, dando risada. Tem cada figura fantasiado. Logo nos separamos. “Numa maratona, você deve se sentir confortável”, ensina Ken Glah, 20 anos de Ironman. 

Controle do ritmo, hidratação e alimentação são fundamentais durante a prova. A medida que a quilometragem aumenta, mais emocionante fica a competição. Muitos correm conversando, em grupos. Preferi correr sozinho. As vezes escutava os comentários de outros corredores. Alguns estavam preocupados com a USP (15 km à frente), outros já pensavam no km 32 (à duas horas de distância). A barreira psicológica, o possível fracasso, ia se manifestando. Não podem existir dúvidas. Mantive o ritmo. 

No km 20, estava inteiro e devidamente aquecido. Perto da Praça Panamericana encontrei o Formiga posicionado para fazer as fotos. O relógio marcava pouco mais de 2 horas. Sempre concentrado, estava feliz em realizar o sonho de correr a maratona. Segui firme, com a meta de terminar a prova em menos de 04:30 h. A torcida e o incentivo das pessoas que assistem, motivam até os mais acabados. 

Difícil é ficar quatro horas sem falar. Para quebrar a solidão, incentivei muita gente. “Vamos lá, você consegue”. Com isso eu ganhava força e afastava os pensamentos negativos. Lembro de cantar trechos de músicas. Dançava correndo! Só alegria. Depois do km 30, a corrida muda. Ninguém mais dá risada. Ninguém conversa. Alguns estão deitados no chão. Outros fazem massagem. Comecei a ultrapassar pessoas que empurravam as pernas com as mãos. Nesse momento dei valor ao treinamento. Sem dores, procurei não me impressionar com o que via. Concentração. 

Logo já corria no túnel do km 37. A prova estava terminando! Aquela cena de batalha que relatei acima, tornara-se mais crítica. Senti uma certa
ansiedade, queria terminar logo, e acelerei o passo. Pensava nos treinos, na dedicação e disciplina. Tive vontade de chorar de alegria. Cruzei um cara quase parando. “Minhas costas estão doendo”, reclamou. “Engane o seu cérebro. Você não está sentindo nada”, respondi sem piedade. 

Embalado, cruzei a linha de chegada com 04:18:28 h. Não pulei, nem gritei. Apenas levantei o braço. Realizar um sonho não tem preço. Vibrei com a chegada de inúmeros anônimos e fiquei emocionado quando vi meu irmão pisar no tapete (05:13:09 h). Valeu. A Maratona de São Paulo me mostrou que nada é impossível. Com planejamento e determinação, você também poderá afirmar que foi fácil. 

Texto © por Fernando Fragoso


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Algumas frases que ajudaram nos momentos de preparação 

"Ironman é mais uma corrida contra você mesmo do que uma própria competição. Você tem que manter monitorado o seu corpo, ajustar a sua passada, beber e comer. É uma corrida forte mentalmente em que é preciso se preocupar não na intensidade, mas no conforto e controle do ritmo". 
Ken Glah 

“Corrida de aventura é estar confortável em situações que não são nem um pouco confortáveis. Ou seja, se você quer treinar para ficar bom, comece pela sua cabeça. Não ache qualquer coisa chata ou desconfortável, brinque de enganar o seu cérebro”.
Sergio Zolino 

"Não se preocupe com o ritmo dos outros. Controle os seus sentimentos e emoções, pois na prova você terá vários humores. Em São Paulo, infelizmente, a maioria das pessoas não fazem a prova toda. Portanto, não se importe com o que acontece ao seu redor. A chegada é sempre um momento único para quem termina. Aproveite e curta o seu feito".
Alfredo Donadio 


Sugestão de livro: A Semente da Vitória. Autor: Nuno Cobra 

Parciais:
00 km - 10 km - 01:04:31 h
10 km - 20 km - 01:00:00 h
20 km - 30 km - 01:00:56 h
30 km - 40 km - 01:00:33 h
40 km - 42 km - 00:12:28 h 

Total: 04:18:28 h 

Agradecimentos: Pirelli, Coco Loco, Scott, Adventure Gears, Fuel Belt, Henry Abreu Jr, Eduardo Abranches e todos que incentivaram ou colaboraram de alguma forma. A próxima prova já está marcada: Maratona de Curitiba (17/11).

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