Maratona do Rio de Janeiro 1985
por Bastter

Bastter conta como foi a sua primeira maratona, no Rio de Janeiro em 1985, quando na juventude de seus 20 anos tinha muito mais entusiasmo do que experiência.



L
ogo no início das Maratonas no Rio eu, que corria corridas de longa distância na faculdade, resolvi treinar.

Eu mesmo elaborei o treinamento e até estava me saindo bem. Fiz treinamentos cada vez mais longos, nunca ultrapassando os 28Km que eu só fazia eventualmente. 

A um mês da maratona fiz 28 km em 2hs e acreditei que faria um excelente tempo na Maratona. Estava tentando menos de 3hs.

Na época eu tinha 20 e poucos anos, muita vitalidade e pouca experiência.

O trajeto no Rio, ainda nos anos 80 saia do Leme, indo até o Aterro, Perimetral até o Silo Tupi, voltando até o Leblon e depois terminando no Leme.

Me sentindo muito bem treinado e acostumado a ganhar provas na faculdade (normalmente de 5000 e 10000 metros) achei que eu seria um campeão.

A prova naquela época era muito bem organizada, o povo todo na rua, era uma delícia.

Até aquele dia a maior prova que eu tinha corrido tinha sido uma meia maratona e o meu maior treino tinha sido de 28 KM.

Larguei muito bem e fui cumprindo meu objetivo de correr a Maratona em 3 horas - Eu queria correr a 4:30 por KM. Achei que eu estava muito bem e comecei a me animar. Dentre os amadores eu era um dos primeiros. Comecei a apertar o ritmo e acreditar que eu poderia fazer em 2:45min. Comecei a correr no ritmo extraordinário para mim de 4min/km. Eu estava voando. Ia terminar em uma Olimpíada.

Lá íamos nós: Urca, Aterro de Botafogo, Aterro do Flamengo, uma maravilha. 10Km e tudo bem. 45 minutos, beleza. Só apertar mais um pouco e faço em menos de 3 horas. 

Ia bebendo água e o povo aplaudindo. Minha brincadeira era ultrapassar os outros. Colocava um alvo, alguém correndo lá na frente, e ia apertando até ultrapassa-lo, narrando mentalmente como se estivesse em uma Olimpíada. Cheguei na perimetral e tudo bem, 15km. E pensava, se eu não apertar no inicio por mais que corra bem no final, não vou fazer um tempo bom. Minha preocupação era fazer um bom tempo.

Eu tinha um bom final nas provas de fundo da faculdade e acreditava nele. Mas, na faculdade era 10, máximo de 15km...

Cheguei no Silo Tupi, dei a volta, olhei para frente e me deu aquela sensação estranha. Até o Leblon agora. E o Leblon nem era o final. Senti pela primeira vez o que era uma Maratona. Eu estava lá no fim do mundo em cima da Perimetral, quase na Av Brasil, e a próxima curva era lá longe no Leblon. E o Leblon e muito longe da perimetral. E o Leblon não era nem o final. Mas que corrida longa essa...

Não estava cansado, mas psicologicamente me abati, quando eu dei a volta e olhei para frente, vendo Botafogo e o Morro da Urca e imaginando onde era o Leblon. Caiu a ficha que aquilo não era uma corrida da faculdade. Aquilo era algo diferente. Algo que eu nunca havia feito e provavelmente não estava preparado. Ao menos psicologicamente. 

De qualquer forma tentei manter o ritmo. Só que me conformei com os 4:30 achando que 4:00/km era demais. O Monstro da Maratona começava a me devorar...

E ai, no meio da Praia de Botafogo, com mais de 25km corridos veio a dor. Quem já correu uma Maratona sabe o que e a dor. Dói. Simplesmente dói. Começa a doer tudo. O calção dói, a camisa dói, a meia dói, o pé dói, a cabeça dói, o tórax dói, a barriga dói, a alma dói. Tudo dói e tudo pesa. A única coisa que você quer na vida e parar de correr. você não quer diminuir, andar, chorar, você só quer parar de correr. E o que e pior, começa a aparecer um monte de corredores parados...

Foi aí que eu comecei a me arrastar. O ritmo acabou, nada de 4:30, nem 5:30, nem 6 min por quilômetro. Eu simplesmente comecei a me arrastar. Estava derrotado pela Maratona. Logo eu, o grande corredor da faculdade que ia terminar a Maratona em menos de 3 hs. E aí pensei, droga se eu treinei 28Km em 2 hs, porque hoje eu vou demorar mais de 2 horas para terminar 28Km? Para que tanto treinamento. 

Bom cheguei ao túnel que leva a Copacabana mas infelizmente era um túnel, um espação e depois outro túnel. E aquilo demorava uma eternidade, eu só queria chegar em Copacabana. não sei porque mas eu acreditava que se chegasse em Copacabana conseguiria chegar até o final. 

Me arrastando, fingindo que estava correndo finalmente cheguei em Copacabana. Quando terminou a Princesa Isabel e entrei na Praia de Copacabana outra coisa terrível: A imagem dos corredores vindo em outra direção se aproximando do final enquanto eu teria de correr mais 7 quilômetros ate o Leblon, dar meia volta e voltar para onde eu estava...

Todo o percurso ate o Leblon era feito com o pessoal do outro lado bem na sua frente e isso era mortal. Não pela disputa mas por saber que eles estão quase acabando. Aqui não importa mais a posição, o tempo, só importa acabar, parar de correr e não desistir. 

Neste momento aconteceu uma coisa estranha. Eu não decidi e não lembrava como, mas de repente eu percebi que estava andando. Não estava mais correndo. Andava e bem devagar. E o que e pior, batia papo com outro corredor que eu não tinha idéia como tinha aparecido e do que falávamos. E lá fui eu andando Copacabana abaixo em direção a Ipanema. Tentei correr algumas vezes mas logo andava de novo. O mesmo com meu novo amigo. Um apoiava o outro, não sei porque a gente estava correndo junto. Ate que desisti de correr. Era uma coisa impossível. Andar não era tão ruim, era suportável, apesar que a Dor não tinha me abandonado. Tudo doía...

Andando, com algumas tentativas de correr cheguei no Leblon. Dei a volta, o povo incentivava e ai era a reta final. 7km ate o fim. já tínhamos corrido (ou andado) 35km! não deixou de ser um alento. Ao menos não ia mais ficar vendo pessoas bem na minha frente. Eu via agora, por incrível que pareça um monte de corredores que ainda estava atrás de mim, por mais que eu achasse que era o ultimo...

Esta injeção de animo me fez voltar a correr. Corri uns 500 metros e de repente, igual quando eu passei a andar, estava sentado. Me vi sentado em Ipanema, meio groge, meio perdido. Alguém me deu água, outro me deu um chocolate e alguém me levantou e me incentivou a continuar correndo do meu lado. Era conhecido ou um rosto na multidão? Não sei, mas com aquilo eu fui embora. Não sei quanto tempo fiquei sentado. Já estava meio perdido e já estava escuro (A Maratona do Rio naquela época era corrida a tarde).

Me arrastando, não sei se correndo ou andando, cheguei em Copacabana e vi que passei da marca de 39Km. A esta altura acho que eu andava mais rápido do que corria, o que só acontece quando estamos completamente acabados. De qualquer forma eu tentava correr. Só me movia a vontade de terminar. Nunca deixei nada pela metade, não ia deixar de terminar esta prova...

Passei os 40Km e já dava para ver a linha de chegada lá na frente. Isso me fez correr um pouco mais rápido, mas por apenas uns metros. Voltei logo a me arrastar. Meu amigo corredor tinha se perdido, não sei se ficou para trás ou para frente. Em volta de mim todos se pareciam comigo. Um bando de corredores acabados se arrastando, andando, sentando, etc. E por incrível que pareça, ainda tinha muita gente indo na direção do Leblon.

41 Km e agora só faltava 1Km e eu sabia que chegaria ao final. Faltando 500 metros ou algo assim voltei a correr e nos últimos 100 metros nao sei como consegui dar um pique para ao menos chegar bonito...

No relógio estava meu tempo: 5 horas e 15 minutos!

Duas horas e quinze minutos a mais do que o meu plano!

Descobri da forma mais difícil que uma Maratona nao tem nada a ver com uma prova de 10Km ou ate mesmo 15Km.

Voltei para casa no carro dos meus pais ouvindo sobre as pessoas que chegavam na minha frente enquanto eles me esperavam e nao agüentavam mais: Velhos, crianças, mulheres, deficientes físicos, garçons, enfim, todas as pessoas do mundo haviam chegado na minha frente segundo os meus pais...

N
o ímpeto da juventude, tinha forca e resistência como nunca mais tive. Poderia ter ido mais longe se tivesse sido treinado adequadamente. Meu tempo foi terrível, meus pais fazendo troça de mim, estava mais cansado do que já estive em toda minha vida...

Mas eu tinha uma camisa escrito: Eu Completei a Maratona e, apesar de tudo foi uma vitória. Não me preparei direito. Corri demais no início. Deveria ter tentado 4 horas e não 3 horas. Me cansei, andei, me arrastei, sentei, quase morri, mas terminei. Não sei como terminei, nas condições que terminei. Mas terminei, fui até o final e esta não deixou de ser uma vitória...

Um abraço


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Texto © por Bastter

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