Maratona do Rio 2007
por
Ivo Cantor

Ivo Cantor conta como foi a participação em sua décima maratona, cujo objetivo era completar em menos de 4 horas.

1ª.parte – Entendo como objetivo principal a participação na maratona do Rio de Janeiro em 24 de junho de 2007 uma resposta ao repto que lancei a mim mesmo de concluí-la em boas condições físicas, sem esgotamento e risco de vida, sem sobressaltar meu entorno familiar. Considero que a participação atinge plenamente o objetivo, não importando o tempo de conclusão.

Em segundo lugar, a inscrição nesta prova atende ao meu plano anual de correr duas maratonas, uma em cada semestre, a segunda sendo sempre Curitiba, em novembro.

Esta será a minha décima maratona , considerando a do Rio de Janeiro-2006, interrompida por exaustão no Km.40. Há um objetivo que se superpõe a todos esses: Concluir a maratona sempre sub-4horas.
Desta vez, desconsidero esta opção.

PUBLICIDADE

2ª.parte – A preparação foi convencional, adaptada ao objetivo, dentro de minhas condições físicas e idade, tempo disponível e situação familiar. Este trabalho foi organizado pelo Prof. Ms.José Vítor Vieira Salgado, da Faculdade de Educação Física da Unicamp, meu treinador desde junho de 2004. Os treinos foram executados a partir do dia 28 de dezembro de 2006, ocasião em que o Dr.Gilson Duz, cirurgião plástico que cuida do meu histórico de melanomas, me liberou para atividades físicas.
Desta data em diante, são seis meses de treinamento, seis vezes por semana: sessões de musculação, trotes regenerativos, tiros de velocidade, fartleks, longões, bicicleta ergométrica, corrida em esteira, alongamentos. Incluo aqui a prática de LianGong, duas vezes por semana. Percorri 930km e ergui incontáveis pesos.

Tive a orientação da nutricionista Mônica Forte, que me atende desde 2006. Fui três vezes ao consultório, onde, além de medir e anotar, ela traçou o programa nutricional diário e o que antecede a prova. Obtive o aval da Dra.Maria Helena Vidotti, cardiologista, após realizar exames de laboratório, eletrocardiograma, ecocardiograma e cintilografia coronariana.

Em outras ocasiões, costumava incluir no ciclo preparatório a disputa de provas de 10km e meias-maratonas. Desta vez não tive oportunidade de incluir tantas quanto queria, limitando-me à Corrida Nutry 10km de Curitiba, em abril. A estratégia do treinador foi, a priori, não usar ritmos pré-estabelecidos, deixando que eu os obtivesse ou determinasse. Para mim, foi uma alteração difícil. Estava acostumado a cumprir tempos e seguir ritmos, pois é um traço idiossincrático que me agrada. Não foi fácil de obedecer ou me acostumar. Entretanto, agora devo admitir que o plano funcionou.

Outra novidade foi o “treino de hidratação”, nome que dei ao exercício de, nos treinos longos (superiores a duas horas), descobrir o jeito prático e eficiente de preparar e ingerir os repositores energéticos e eletrolíticos. Carregava comigo envelopes com maltodextrina em pó, soro, cápsulas de sal etc, preparava-os e bebia sem interromper a corrida. Neste mister usei diversos invólucros, medidas e vasilhame até encontrar o formato ideal. Acostumei-me a carregar o cinto estilo camel-back, com frasco, pacotes, dinheiro trocado, além do celular.

A maior parte dos treinos foi de execução prazerosa, segura, sem incidentes.Prioritariamente, os treinos são realizados pela manhã, horários semelhantes ao da prova, sempre que possível. Mas não tive pejo em fazê-los à tarde ou alguns à noite, mormente os de musculação.

Resolvi mudar de local de treino de musculação, saindo do Clube Bonfim, uma excelente academia, mas com perfil social, onde tinha que disputar o espaço e uso dos aparelhos. Passei a treinar numa academia particular, muito próximo de casa, com várias vantagens: baixo preço, distante apenas duas quadras de casa, atendimento personalizado. Não precisei mais ir de carro, pagar estacionamento e taxas de clube. Além disso, pela primeira vez, conseguia fazer os exercícios na seqüência preconizada, respeitando minuciosamente as pausas. Este foi o diferencial no macrociclo: o atendimento gentil e profissional dos professores Mateus e Márcia.
Gosto de todo tipo de exercício, mas há dois que prefiro passar sem. Desta vez, o treinador não os incluiu. São eles: 1km máximo e teste de Cooper. Os que mais aprecio são os longos: percursos com mais de uma hora de duração, em velocidade confortável.

Não foram programados treinos em rampas: são difíceis, exaustivos, dependem de acompanhamento do treinador, mas oferecem excelente resposta.
Uma vez por semana, há um treino assistido: aquele feito diante do treinador, que avalia os números obtidos e se atém, principalmente, à expressão corporal do atleta ao fim da sessão. É um exame visual importante para avaliação. Além disso, antecipa o feedback, resposta fundamental sobre o desempenho, cobrada por ele, diariamente.
Recebo minhas planilhas, por email, todo domingo. É a hora mágica. Um momento muito agradável desvendar o segredo contido nas folhas, imaginar a semana iniciante, os planos para execução daquelas aliciantes tarefas.

Costumo descrever, desde o ano de 2.000, a seqüência de treinos ou participação em provas, com muitos detalhes, principalmente os tempos. Isso faz de meus cadernos longos seqüenciais de números. O registro desses leva a novas marcações, que redundam em novos relatórios sucessivamente.
Desta vez, o treinador quebrou mais um paradigma, forçando-me a correr sem se ater ao cronômetro e marcação de voltas. E é com este escopo que treinei para esta maratona. Insistiu ele em que me dedicasse aos treinos, mais relaxado, observando a natureza, menos tenso, menos ligado ao resultado numérico, mais à satisfação e a alegria do esporte. Foi um enorme desafio superar esta fase.

Outro detalhe importante: sofri dois acidentes e uma lesão fora do treino. Descrevo-os:
1- atropelamento: fui derrubado por um motorista desatento, na saída do estacionamento do Parque Taquaral, em fevereiro, no km 15 de 20 previstos. Não sofri lesão séria. Entretanto, tive dois três dentes avariados, dois com fratura de raiz, redundando em um tratamento de canal e uma perda definitiva, além de ser necessário refazer a prótese dentária móvel. Consegui terminar os 5km faltantes, em trote, debaixo de uma forte chuva. Tive escoriações, evidenciadas por grandes hematomas na coxa, perna e tornozelo direitos, mas sem dores. Voltei aos treinos dois dias após.
2- Pancada: próximo a este local, em 12 de março, num longo de 20km, pisei com o pé direito num galho seco; este torceu-se e bateu no tornozelo esquerdo. Sangrou no local, ficando alguns espinhos espetados. Continuei o treino e tratei do ferimento ao chegar em casa. Dois dias depois, apresentava inchaço, vermelhidão e dor. Fiz consulta médica, ultra-som, repouso, medicação e gelo. Foram dez dias de treinos perdidos.
3- Estiramento: três dias após esta ocorrência, tive um estiramento na planta do pé direito, causado por erguer peso excessivo, fora de treino. Perdidos mais cinco dias de treino.
Após estas ocorrências, tudo seguiu conforme planejado, até o final.

3ª parte – a semana que antecede a prova.

Este período é crucial. Inicia-se na segunda-feira, ainda com treino forte de musculação, seguido de tiros em pista (na FEF, Unicamp), descanso e um trote de 6km em grama, para, na sexta-feira, realizar a viagem de ida.

Para que esta ocorra, começo os preparativos lá atrás, muito atrás, com a inscrição online no site www.ativo.com. Consulto várias vezes o site oficial da prova www.maratonadorio.com.br e faço a reserva sempre no mesmo hotel www.argentinahotel.com.br.
Quando esta semana chega, só me resta comprar as passagens, também online, em www.viacaocometa.com.br, onde é possível escolher dentre as várias opções de horário e seus valores, além da qualificação do veículo.

Já na segunda-feira, preparo o checklist do material que devo comprar ou separar o que já possuo, para organizar tudo na quarta-feira. Comprei uma camiseta azul dryfit Nike, por R$69,99, em 3 pagamentos, na BabySport, minha loja favorita em Campinas. O short será também azul, Nike, junto com o boné preto dryfit Nike, lógico, e os tênis Asics, já amaciados, tudo presentes de minha filha Maria Cecília. Meias: novas da Asics. Um perigo, coisas novas.
Viajarei sozinho, os familiares convidados não poderiam comparecer.
Quinta-feira, reunião com o treinador para definir a estratégia, últimas recomendações e receber os votos de boa-sorte. Levo seu equipamento Polar, para gravar o tempo de prova.

Aumento as doses de Rescue (Floral de Bach) para ansiedade; é a única ocasião do ano que ingiro algum produto com álcool. 
As refeições, desde segunda-feira, são carregadas de carbohidratos; é uma sucessão de pão, batata, bolo, macarrão, nhoque, mais pão, mais batata, mais, mais e menos café, menos chimarrão, zero de proteína animal.

Vou ficando cada vez mais quieto. Arrumo a mochila, verifico tudo, me acomodo cedo.

Sexta-feira, acordo cedíssimo, com tudo pronto, me despeço de Marly e vou para o embarque. Uau! Oito horas da manhã, ônibus quase vazio, dia de sol, pressinto que vai sair tudo bem. Vou me divertindo com minhas palavras cruzadas e trocando mensagens de celular com Marly. Ótima viagem, sem incidentes. Paradas normais, incluindo uma na Polícia Rodoviária, próximo ao Rio. Verificam todo o bagageiro e eis que assoma no andar de cima uma figura fardada para vistoriar as bagagens de mão. Gelei! O coração sobe até a garganta, o pulso dispara! 

Acabo de lembrar dos meus pacotinhos cheios de pó branco, dentro da mochila. São meus “sacolés” de maltodextrina, com uma cara suspeitíssima. O cavalheiro fardado está à procura de armas e drogas. Arma, não possuo. Já os pacotinhos...gelei mais ainda quando ele, educadamente, pede que abra a mochila. Fi-lo. Ele olha sem interesse, diz para fechar, agradece e vai atormentar o cidadão da frente. Uau!

Chegado ao Rio, dentro do horário previsto, acomodo-me no hotel e já procuro ir à entrega de kits, que ocorre na estação Largo da Carioca, do Metrô. Clima festivo, encontro de conhecidos, mas volto logo, quero só descanso e recolhimento.

Sábado, é só atravessar a rua e ver a montagem da arena de chegada. Está no Aterro do Flamengo, defronte à praia. Faço o trote de 3km pela grama até chegar a um ícone carioca, Churrascaria Porcão, um primor de feiúra.

Muita, muita gente fazendo aquelas corridinhas de reconhecimento e de ser reconhecido pelos escritos nas camisetas, aquela ânsia de contar que veio para a prova. Contenho-me, já fiz isso, não aprecio mais.

Descanso, telefono para casa, descanso outra vez, telefono outra vez, e mais uma vez, e mais , e o sábado termina. O frio nos “internos” vai se instalando, aproxima-se a hora, tento me acomodar. Não vai ser fácil. Como dizia meu pai : “Agora é que vem a pior parte!” e vem mesmo, mas surpreendentemente durmo um sono só, até as 4h da manhã.

PUBLICIDADE

4ª.parte - Execução

Às 4h30 estou uniformizado, pronto, com tudo verificado. É um pouco cedo, concordo, mas prefiro assim. Vamos ao café da manhã, prometido para as 5h. Normal, outros corredores aparecem.Sou o primeiro a sair, vou ao embarque, os ônibus que nos levarão à partida já estão prontos e centenas de mais apressados que eu já estão la´.
Às 5h30, partimos e chega-se ao Recreio dos Bandeirantes às 7h. É tempo de pegar o chip, encontrar os conhecidos, alongar, aquecer, urinar dezenas de vezes, de olho no relógio.

Pontualmente, às 8h, com gravação do canal SporTV, partimos aos berros, no sentido contrário à vinda, para uma volta de 2km, o que evitará aquele retorno no finalzinho da prova, tão execrado por todos. Chamo isto de “volta de apresentação”, rio sozinho. Continuo a rir. Todos têm aquela expressão apalermada, todos fazem aqueles comentários de sempre “só faltam 41 agora, ahahah!”, é sempre assim, mas me divirto sempre com estas histórias.

Fecho 5km com menos de 30min, paro 15 seg para a enésima urinada, espero que seja a derradeira; está ótimo o ritmo, é para isso que vim, já vou fazendo contas e mais contas, calma, calma, lembro do treinador, nada de contas, “aproveite o passeio , seu Ivo! aprecie a paisagem, seu Ivo!”

Nos 10km, já há um espaçamento maior, vou consultando meu programa de abastecimento, escrito num papel e guardado na guaiaca. Vai tudo certo : 59min42seg, muito bom. Não sinto dores, nem desconforto, uma reta só, totalmente plana, marzão do lado rugindo... é muita água. Falar nisso, marco quem está à minha frente, desvio para o mato, mais um peso na bexiga, não tem jeito, tinha já bebido os 500ml de gatorade. Volto e acelero para alcançar o marcador, tudo certo.

Chega o km15 com 1h31, melhor impossível, é que continua tudo plano e daí até o km20, já conheço o trecho, aproveito o ritmo e fecho os 20km com 2h03. Continuo animado e confiante. Próxima etapa : 25km com 2h35, o tempo aumentou mas havia duas subidas gigantes, na av.Niemeyer e Elevado do Joá. Na escuridão, aproveito e esvazio a bexiga, é a última, prometo. Mais umas subidas e alcanço o km30, com 3h07. A média está segura. 

O sol começa a fazer efeito, sinto queimar o lombo e as cadeiras, um ardido na antiga lesão do quadril, que responde no joelho esquerdo, um pra lá, um pra cá, pelo menos está equilibrado. Distraio-me com a favela do Vidigal e a vista de Ipanema, lá de cima, descendo, descendo, chego ao número cabalístico, km32, é a hora iluminada. Para mim, chegar ao 32 é vislumbrar o final. A conta (contas, mais contas, desculpe professor!)é esta : tenho uma hora para liquidar 10km, que somada às já alcançadas 3h19’22”, projeta o tempo final. Tudo que puder melhorar agora, refletir-se-á (adoro mesóclises, são muito elegantes...)na marca de encerramento. 
Agora, tudo plano novamente, praia de Ipanema, Leblon e Copacabana. É a parte mais bonita do trecho, mas minha preocupação é outra : a barriga vai murchando e a guaiaca com os pertences começa a dançar no quadril. Não tem jeito, preciso ajustá-la e isso só parando. Parar é estranho, começo a cambalear, derrubo a garrafa, ao me virar e abaixar quase caio, o equilíbrio é precário mas consigo me organizar. 

A todas essas, venço Copacabana, encontro e cumprimento meu amigo Hideaki trotando alegremente. Não consigo acompanhar seu ritmo, agora estou em 6’30”/km e assim pretendo ir até o final. Entro na av.Princesa Isabel e seus túneis escuros para fechar 40km com 4h13, continuo feliz com o resultado.

Nesta hora, sinto o desânimo, uma imensa vontade de parar, até ando um pouquinho. É o pior momento, onde a avenida se abre gigantesca, alarga-se de forma assustadora; a visão da enseada de Botafogo dá a impressão que não chegarei nunca, é muito espaço aberto, desconcentração total. Chego penosamente ao km41, não falta nada e estou ruindo. 

Felizmente, algo de bom acontece : encontro um conhecido, Ronald Sekkel, é um alento, enfrentamos juntos o último quilômetro, que mede literalmente 1.195m.
A alegria de ver o funil, a multidão que aplaude, parece que é para nós, cruzamos a linha aos gritos - 4h26’59” –
Continuo a berrar, lembro do professor “Não pare, seu Ivo, não pare, seu Ivo, continue andando, andando!
Continuo sim, quero ligar para casa, ligo o telefone e, antes de qualquer coisa, ouço esta linda mensagem :
“Créditos insuficientes para completar sua ligação!” 
Credo! Logo agora!

Não me amofino, ligo a cobrar, conto a boa nova para Maurício e Marly : sim, cheguei, cheguei bem, completei a maratona num tempo bom, estou muito satisfeito. Liguem imediatamente para o Prof.José Vítor Vieira Salgado! 
Sinto que um sorriso apalermado se afivela em minha face, é para isso mesmo que eu vim : para ficar com essa cara de bocó mesmo. E consegui.

Conclusão - Atingi meu objetivo. Conclui a Maratona do Rio de Janeiro em 4h29min59seg, em boas condições de saúde, sem lesão de espécie alguma, sem exaustão, num tempo razoável para minha categoria (55-59 anos) sendo o 58.colocado em 120 participantes. 
Na classificação geral, sou o 872º. em 1360 concluintes.
Mais números : há um cálculo antigo preconizando que atletas amadores têm um resultado satisfatório quando conseguem um tempo inferior ao dobro do primeiro colocado. Pois vejam : Elcio Graciolli, foi o primeiro a cruzar a linha de chegada, com 2h18min30seg. O dobro disso corresponde a 4h37min. Logo...
Agradeço à inestimável colaboração, compreeensão e apoio de Marly, minha mulher, o carinho de meus filhos Ciça, Maurício e Bel. Ao entusiasmo, profissionalismo e dedicação extremados de meu treinador Prof.Ms.José Vítor Vieira Salgado e os cuidados de Mônica Forte, nutricionista sempre atenta às minhas medidas. 
Para finalizar, uma nova ameaça : ano que vem, vou de novo, ahahahahahahahahahah!!!!!

PUBLICIDADE


Créditos:
Texto copyright © por Ivo Cantor

Artigos relacionados:
Hidratação - O que beber
Isotônicos - Quando e como usá-los - Hidratação para Corredores
Hidratação para Corredores
Importância da boa hidratação no esporte
Bebidas energéticas - Energéticos
Alimentação e hidratação para a performance do esportista
Preparação para o dia da Corrida
Importância da Água
Desidratação, Calor e Exercícios Físicos
Perigos da desidratação
Treino de corrida longa

Voltar

Use essa ferramenta abaixo pesquisar nesse site:  

Use a busca abaixo para encontrar o que deseja em mais de 5 mil páginas sobre esporte, saúde e bem-estar:

© 1999-2018 Helio Fontes
Anuncie no Copacabana Runners | Utilização de material original do site | Política de privacidade
Copacabana Runners - Atletismo e Maratonas