Maratona Cidade do Rio de Janeiro 2003
por Fernando Fragoso

Fernando Fragoso narra sua participação na história Maratona Cidade do Rio de Janeiro 2003. O evento marcou a volta da maratona à Cidade Maravilhosa depois de 2 anos. Por estar alguns quilos acima do peso e sem o treinamento adequado, a meta de Fernando seria correr em menos de 04:30, sem andar.




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ois pontos são fundamentais para completar uma maratona: treinamento e persistência. Acredite, é o que irá determinar seu sucesso ou fracasso. Independente do tênis que estiver usando, da temperatura ambiente, se a prova vai acontecer sob sol ou chuva. Nada disso é relevante. A preparação física e o controle emocional, sim, são decisivos, além da hidratação e alimentação correta. No dia 29 de junho, lá estava eu, no Recreio dos Bandeirantes, para correr minha quarta maratona. Diferente das provas anteriores, não treinei durante um mês antes do evento, fiz churrascos, enchi a cara, comi doces, enfim, tudo errado, sabendo que comprometeria o resultado na capital fluminense. A empreitada era a seguinte: percorrer os 42,195 km, largando do Recreio, passando pela Barra, São Conrado, Leblon, Ipanema, Copacabana e Botafogo, chegando no Aterro do Flamengo.

A primeira edição da Maratona da Cidade do Rio de Janeiro, organizada pela Spiridon Eventos, reuniu cerca de 1.200 atletas, cruzando a orla carioca num domingo ensolarado. Meu irmão Osmar, 21, aceitou o convite e me acompanhava no city-tour pela cidade maravilhosa. Copacabana, please! As 8 horas em ponto foi dada a largada mas, apesar da cronometragem eletrônica via chip, não havia tapete para registrar os tempos individuais. Partimos do fundão, já que estávamos, literalmente, regando as plantas no momento do sinal. Sob o pórtico, acionei o relógio.

Colocamos um ritmo bem moderado, sabendo que o sol iria fritar em breve. Há 20 dias não chovia por lá! Do Recreio até a Barra é um trecho ideal para um início de maratona: um retão silencioso, plano, para concentrar mesmo. Após (a cada) 40 minutos, engolimos um sachê de carboidrato em gel, além de dois comprimidos de aminoácidos (BCAA) a cada hora. O primeiro posto de isotônico estava posicionado no km 12, seguindo em abundância até o final da prova. Já corríamos entre o povo. Carros, barulho e mulher bonita. Agora era manter a concentração rumo a São Conrado, curtindo e controlando as passadas.

Alguns quilos acima do peso e sem o treinamento adequado, a prova seria uma oportunidade de verificar como meu corpo ia se comportar. A meta: correr em menos de 04:30 h, sem andar. Por volta do km 18, formava-se um longo congestionamento de veículos e um esperto motorizado resolveu invadir a área reservada para os corredores. Eu já estava decidido a alcançá-lo para dizer palavras nada amistosas, quando vi um guarda multar o sujeito. Ainda assim, notifiquei-o da canetada em primeira mão. A situação serve de exemplo. Como um carro invade o percurso da maratona? E o respeito?

Logo corríamos no Elevado do Joá, com o mar ao fundo. Passamos pela meia-maratona, marcando 02:11 h, e, num dos locais mais bonitos da prova, deixei meu irmão. Dá-lhe água, gel e Gatorade. Mesmo com protetor solar e boné na cabeça, o astro começava a castigar. Não demorou muito para aparecer a única subida do trajeto, a Av. Niemeyer, entre os km 25 e 28, aproximadamente. Estava tudo sob controle, o corpo ia resistindo. Mantive o ritmo. Leblon ficava para trás.


Fernando Fragoso na Maratona do Rio de Janeiro 2003

Quando chegamos em Ipanema o clima era de festa. Muita gente bronzeada, capoeira, samba. Corríamos em sentido oposto à multidão, pelo menos parecia. Por várias vezes escutei em tom de espanto: "estão vindo lá do Recreio". E ainda restavam mais de dez quilômetros. Fui na balada de três corredores que estavam à minha frente, com um mesmo uniforme, tentando me concentrar na corrida, ignorando as tentações de biquíni. Eram tantas.

Próximo do km 35, já em Copacabana, foi um momento decisivo. O que dizia sobre persistência. O cansaço começou a bater e pensei: "estou correndo a Maratona do RJ, eu escolhi estar aqui, estou bem, não vou desanimar agora". O visual também ajudava. Percebi que estava alimentando minha ansiedade, através de uma estúpida contagem regressiva. Definitivamente, não podia fazer isso. Não interessava quantos quilômetros ainda teria pela frente. Iria até o fim, no mesmo ritmo.

Consegui administrar o cansaço mas, alguns quilômetros à frente, com o sol cozinhando, encanei que precisava de água. Passei por dois postos de isotônicos, e nada. Só em Botafogo pude molhar a garganta e esfriar a cabeça. Concentração. Já avistava o Pão de Açúcar, a chegada estava próxima. "Esse é o espírito da maratona, a superação. Agora que a prova está começando. E já vai terminar?". Reflexões, sinceras, em exaustão. 

No Aterro do Flamengo, estava suado, mais magro, cansado, mas sem dores. Era só fazer uma perna (ida e volta) de três quilômetros, para vencer o desafio. E como foi longo esse trecho. Devorei o último PowerGel no km 40, levantei a cabeça e segui rumo ao tapete. Não tinha a mínima idéia do tempo de prova, já que minha última parcial foi no km 30. Incentivei algumas pessoas que caminhavam, pensei no meu irmão e agradeci por mais uma maratona que terminava, cruzando em 04:24:50 h. Como lição: uma cabeça equilibrada é muito mais importante que um corpo bem treinado.

Fernando Fragoso completando a Maratona do Rio de Janeiro 2003

Costumo dizer que todos deveriam correr os 42 km, pelo menos uma vez na vida. É uma experiência sem igual. Uma soma de valores: dedicação, concentração, determinação, entre outros. Parabéns aos organizadores, em especial ao João Traven, que realizou uma bela prova. Possivelmente, o percurso mais bonito do Brasil, sem grandes dificuldades além do calor. Agora é torcer para a prova se manter no calendário nacional. Em tempo, meu irmão completou sua segunda maratona em 04:58:55 h. Você também pode, basta acreditar e treinar.

Parciais: 
10 km - 01:02:13 h 
21 km - 02:11:41 h 
30 km - 03:06:40 h 
42 km - 04:24:50 h


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Créditos:
Texto copyright © por
Fernando Fragoso.

Fernando Fragoso, 26, repórter esportivo e fotógrafo, participou de mais de 60 provas como Rally dos Sertões (97, 99 e 2000), Mitsubishi Motorsports (98 e 2000), Copa Dunas de Rally (99), Copa Vale Raid (99) e Copa Sudeste de Off Road (96, 97, 98 e 99), navegando para 12 pilotos. Também percorreu de bicicleta o litoral de Santa Catarina (94), correu a Maratona das Águas (2003), Maratona de Curitiba (2002) e Maratona de São Paulo (2002), além de cobrir as principais competições. É editor do site e sócio da RALLYBRASIL - www.rallybrasil.com.br

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