Marathon in the Parks
por Rodolfo Lucena

Rodolfo Lucena divide conosco sua experiência na bela "Marathon in the Parks", em Maryland nos Estados Unidos. Tudo muito lindo, trilhas asfaltadas por bosques que se tingem de vermelho e laranja; de vez em quando, um riacho, um lago.


A sexta-feira amanheceu bonita. Um frio de rachar, mas com sol e quase nada de vento. Saímos, Eleonora e eu, para dar um rolê em Washington, planejando uma caminhada leve para conhecer os ícones da nação americana.

Entre táxi e metrô, deu mais de uma hora de viagem de Gaithersburg, onde estávamos, até a capital norte-americana. E foi só o começo de muitas horas a pé pelas alamedas cívicas.

No fim da tarde, fomos até Bethesda pegar meu número e ver a feira de esportes. Fraquinha, a feira, mas com uma boa promoção em tênis -comprei por US$ 45 um especial para corredores de pés chatos.

Para completar o dia de desobediência a bons conselhos, fomos jantar num restaurante mexicano.

Acordei no sábado com dor de barriga, e o dia amanheceu chovendo, como a meteorologia havia previsto.

Passei o dia tentando me recuperar, indo à janela a cada 15 minutos para ver se a chuva parava (ela só parecia aumentar), deixando a Eleonora doida de tanto mudar para o canal do tempo, esperando que a previsão de chuva e muito frio para o domingão mudasse.

Que nada! O jeito era esperar que, lá como cá, os homens do tempo errassem.

Acordamos às 5h, a chuva estava lá, a TV indicava que o tempo instável iria permanecer, e os termômetros marcavam zero grau -a sensação era de menos ainda.

Para mim, parecia estar descartada a hipótese de recorde pessoal, talvez nem sequer sub-4 horas, quem sabe o que podia acontecer. O medo aumentou quando chegamos ao lugar da largada e vi a chuvinha fina apertar, iria congelar nos 45 minutos que faltavam para a partida.

Iria, sim, se não fosse uma maravilha tecnológica, a tal de warming tent (tenda de aquecimento), que nos recebia a todos num ambiente quentinho, sem vento, sem chuva.

Mas éramos tão poucos, me parecia. Pelo visto, além de não conseguir fazer o tempo sonhado (e já abandonado), iria ainda amargar um último lugar ou coisa lá por perto.

Mais perto ficava da hora da largada, a tenda enchia, o dia se iluminava aos poucos, crescia o movimento lá fora, os animadores gritavam incentivos nos alto-falantes, último com certeza eu não seria.

Chamaram os corredores, fomos nos alinhando segundo a cor dos número do peito, que tinha a ver com o tempo previsto. Rapidinho, tocou o Hino e soou a corneta da largada, dois minutos depois das 7h do dia 24 de novembro. Lá nos fomos, uns mil e poucos gatos-pingados na chuva fina.

Área da largada da Marathon in the Parks

Eu, pelo menos, seguia bem seco sob minha capa de plástico comprada há mais de ano, quando me preparava para correr Big Sur e falavam que podia ter tempo ruim. Na Califórnia, em abril de 2001, o sol brilhou; aqui, estava eu entrouxado em calça comprida, camiseta de mangas compridas, regata com minha pintura de guerra, luvas, gorro de lã e capa sobre o conjunto.

Passei a primeira milha em nove minutos, a segunda em 18 e um pouquinho, a terceira em 27 e meio, comecei a me animar. Não era ritmo para recorde, mas Claudio, meu treinador, recomendara segurar na primeira metade, tanto pelo frio esperado (mas não a chuva) quanto pelo terreno mais acidentado. Não sentia dor, não sentia frio, o vento não me atingia, a chuva incomodava um pouco, mas a capa protegia bem.

Na quinta milha, saudei a Eleonora, que tinha andado quase um quilômetro na chuva para garantir a cobertura completa em seu périplo fotográfico.

Mais três ou quatro milhas, a confiança aumentava, não ia ser tão ruim, minha média estava em 9min09 por milha, antecipando final em torno das quatro horas.

Entramos finalmente na área dos parques, afinal, essa é a Maratona nos Parques. Tudo muito lindo. As trilhas asfaltadas seguiam por bosques que agora se tingem de vermelho e laranja; de vez em quando, cruzamos um riacho, passamos por um lago. Já dá para conversar com um ou outro corredor, já ficamos num grupo que fica mais ou menos nos mesmo ritmo.

Da milha cinco até a 13, o terreno prometido seria ondulado, com algumas subidas mais fortes e longas; a partir da milha 15, a altimetria mostrava descidas consideráveis. De novo, o papel aceita tudo, e internet mais ainda. Na musculatura, as coxilhas viravam morros, a lomba abaixo se transformava em convite para mandar ver (e em medo de se ferrar mais tarde).

Cheguei à décima milha em 1h31 e pouquinho, quase nada acima de 5min30 por quilômetro. Já estava bem suado e começava a questionar se deveria continuar com a capa; ela me protegia da chuva, que já era bem fraca e intermitente, mas também impedia que o suor evaporasse -as mangas pingavam, o peito estava encharcado. Mas, se eu tirasse agora e a chuva voltasse? E se eu ficasse com muito frio? E se tivesse cãibra?

Segui a regra básica: se tá bom e tá quentinho, fica quieto que é melhor prá ti. E prometi rever a idéia depois da metade da prova, que completei em 1h58 e mais um tantinho.

Agora as pessoas já apareciam nas varandas das casas. De longe aplaudiam, outras vinham à trilha. Os voluntários que serviam água e hidratante nos postos colocados a cada duas milhas eram tão estimulantes quanto as bebidas, gritavam incentivos, sorriam, repetiam: "Looking good!", "Great job" e assim vai. 

Marathon in the Parks

Da metade para a frente, com o tempo firmando um pouco em apenas instável e a chuva parecendo ter ido mesmo embora, cresceu o público. Nunca tinha ouvido o meu nome, que levava escrito no peito, gritado em tantas pronúncias."Roudaalfou" parecia a mais comum. Também gritavam "Brrrziul", é claro, alguns até se esguelando como locutores esportivos: "Go, go, Brrrrréziuuuuu!".

Nessa altura já tinha se desfeito a turma em que rodei durante as milhas médias. O melhor de tudo é que eles é que tinham ficado, eu seguia. E parecia crescer o número de pessoas que ultrapassava, enquanto caía o de corredores que me alcançavam. Eu estava fazendo força para melhorar o ritmo, sentia que estava correndo mais, mas o relógio dizia que a média estava caindo para 9min20 e até mais por milha.

Tudo bem, eu estava me divertindo bastante, estava forte, e lá longe, da marca de milha 18, vi a Eleonora de novo. Abri os braços, fiz aviãozinho, mandei beijinho, tava que era um guri.

Mais 500 metros, joguei fora as luvas, finalmente me livrei da capa. E as coxas velhas logo sentiram, o vento agora vinha direto, batia nos quadríceps, congelava o suor que tinha ficado armazenado.

"Fiz cagada", pensei, mas o que estava feito estava feito e pronto, agora era seguir em frente, correr um pouco mais para esquentar.

E nessa brincadeira levei o maior susto. Apesar de a chuva ter parado, em vários pontos do percursos havia grandes poças, que tomavam conta da estrada. A gente não tinha alternativa: ou rodava pela água ou saía da trilha de asfalto e chafurdava na lama do lado, correndo o risco de levar um tombo daqueles.

Em geral, eu preferia ir pelo barro, tentando manter os tênis pelo menos não irremediavelmente encharcados, com a parte da frente menos inundada.

Numa dessas, entrei numa curva com um pé no asfalto e o outro, o esquerdo, que devia chegar também no asfalto, se foi pro barro. Senti o pé torcer, dei um berro, levantei o tornozelo, perdi o equilíbrio, um sujeito que estava próximo impediu que eu caísse e tasquei de novo o calcanhar no chão firme, com força, para ver se ia doer ou se estava limpo.

Não doeu, mas não estava santo também. Fui pisando firme, nem vi outra poçona, entrei n’água até o calcanhar, foi aquele flop-flop, eu falei: cagou de vez.

Que nada, tinha de correr. Correndo, pensei, o tênis ia acabar, se não secando, pelo menos perdendo o encharcado -isso aconteceu na Maratona de Buenos Ayres, onde corri sob forte chuva e ventos poderosos.

Na milha 20, um daqueles truques desagradáveis dos organizadores de provas, que ficam criando voltinhas no percurso para dar a distância exata. Numa clareira, os caras colocaram cones para um lado e outro da pista, a gente ia, voltava, seguia para o outro lado, fazia uma curva, subia uma lomba, dobrava, voltava.... A vantagem, pensei, é que, numa distância curta, a gente logo chegaria à milha 21.

E aí faltavam só mais cinco. Oito quilômetros, menos que uma volta na USP, coisinha pouca a mais que a volta no parque Ibirapuera, quase em cima da pinta o trajeto que faço de ida e volta na avenida Sumaré.

Até agora não sei se, nas três ou quatro milhas seguintes, corri mais ou menos. Fiz mais esforço, procurei me concentrar, senti que corria, mas a média de tempo final diz que a segunda metade foi mais lenta que a primeira.

Sei lá. Sei que da 23 para a 24 fui passando um a um os objetivos que colocava e não ouvia ninguém chegando em mim para conferir. Até que umas passadas pesadas se aproximaram, chega pela esquerda um sujeito grandão, alinha e vai passar. O ritmo dele está bom, eu ouço suas passadas, mas não estão tão mais rápidas que as minhas. Falo para mim que, se ele quiser passar, vai ter de rebolar, e sincronizo o ritmo.

Não é esforço. O cara pisa com força nas poças, espalha água para o meu lado, mas eu sigo na minha. Ele acelera, eu também vou, mantenho a frente e me proponho a chegar assim até a milha 24.

É que lá há um posto d’água, vou caminhar e tomar meu último gel de carboidrato. E só nesse momento o cara dispara.

Tudo bem. Isso já aconteceu em outros momentos e, depois da água, eu sempre recuperava.

Aqui também. Antes da metade do próximo trecho, encosto, passo e tchau. Parece que ele não teve força para manter o ritmo.

No 25, um outro sujeito emparelha e acelera, pergunta se vamos chegar antes das quatro horas, eu digo vambora, ele não agüenta cem metros.

Uma garota de blusa roxa, que tinha me passado e também sido passada várias vezes, agora estava à minha frente.

Rodolfo completando a Marathon in the Parks

Fui. Ela era passado, assim como um outro sujeito que eu também tinha marcado.

Os bosques estavam acabando, já via as ruas da cidade. A gente entra por um caminho de terra, logo tem um viaduto, vamos passar por baixo, ainda vejo uns três caras lá longe na frente.

Mas, quando entro no buraco, vejo também, do outro lado, a marca da milha 26. Começo a berrar, a ouvir o eco da minha voz, os fulanos que ainda corriam na minha frente olham para trás. Azar deles: passo também.

Saio de baixo do viaduto para a luz, começo a ver as pessoas em volta, não sei onde está a chegada, esperava ver a linha assim que saísse daquela escuridão...

Mais uma curva e, agora, sim, a multidão. Começo a berrar de novo, Brasil!, gritos, abro as braços, as pessoas aplaudem,a Eleonora está gritando, o apresentador anuncia "Roudaulfou Lucina, San Paoulou, Brrreéziul", eu não ouço nada, passo a linha.

4h00min36, tempo líquido. 4h00min56 desde o momento do tiro, conetada ou sei lá o quê. Não foi recorde pessoal. Mas foi bom, muito bom, bom demais.

FIM


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Créditos:
Texto copyright © por
Rodolfo Lucena. Fotos copyright © 2002 por Eleonora Lucena.
Rodolfo Lucena é editor do blog + corrida e autor do livro Maratonando.


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