Maratona de Nova Iorque 2003
Sylvia de Albuquerque Carvalho

Sylvia divide conosco a sua experiência inesquecível de ter feito a Maratona de Nova Iorque, seu objetivo traçado para 2003 como promessa na virada do ano.


Alguém disse, certa vez, que não se pode passar por esta vida sem ter tido um filho, plantado uma árvore e escrito um livro. Para os que gostam de correr e escolheram a corrida como esporte, eu acrescentaria: não se pode deixar de participar da Maratona de Nova Iorque. Este ano eu tive o privilégio de viver essa experiência. No dia 2 de novembro corri "A Maratona". 

Foi meu objetivo para 2003. Uma promessa que fiz na virada do ano, enquanto assistia à queima de fogos na beira da praia, em Maceió, com minha família reunida. Prometi a mim mesma que eu iria correr uma maratona e pedi, com muita fé, força, coragem e determinação para levar este plano adiante.

Representava um grande desafio, sobretudo levando-se em conta o fato de que fui fumante por 20 anos e decidi abandonar o cigarro há pouco mais de dois. Aliás, parar de fumar foi o que me levou às corridas. Comecei a trabalhar para concretizar meu objetivo. Minha meta era completar o percurso de 42 km, mas ao mesmo tempo não queria arriscar minha saúde em uma aventura irresponsável. Por isso me preparei. Procurei a orientação de um profissional, Rogério Aviani, professor da academia Companhia Atlhética, e segui uma planilha de treinamento. Também fiz um trabalho muscular supervisionado pelos professores Carlos Magno e Rodrigo, e modifiquei meus hábitos alimentares, seguindo um cardápio balanceado indicado pelo nutricionista Léo.

Reconheço que não foi tarefa fácil. É preciso muita dedicação e força de vontade, principalmente quando se tem que conciliar tantas tarefas: de mãe, professora, servidora pública, dona de casa, motorista, estudante e por aí vai. Arrumar tempo para ser também atleta é um tanto quanto complicado. Mesmo assim, eu fui persistente. Treinos na chuva, no frio, debaixo de um calor escaldante, enfrentando o clima seco da cidade... nada me fez desistir. E o resultado não poderia ter sido mais compensador. Conclui a prova em 4h34.

Uma prova marcada de emoção. Vi cegos, pessoas com perna mecânica, filhos prestando homenagem aos pais recém-falecidos, pais agradecendo pela cura de filhos, marido pedindo pela saúde da esposa, casais já de cabelos brancos fazendo o percurso de mãos dadas. Muitas vezes meus olhos se encheram de lágrimas e meus batimentos cardíacos se aceleraram. 

Tudo começa na largada, ao som de New York, New York. A entrada na Primeira Avenida é algo difícil de descrever. Milhares de pessoas na rua, de um lado e do outro, com bandeiras, faixas, cartazes, gritando e incentivando os atletas como se fossem parentes íntimos. E durante todo o percurso não é diferente. Crianças ficam com o bracinho esticado e vibram quando você toca de leve em suas mãos. Recebi um lenço de uma delas para limpar o suor do rosto e senti-lhe a felicidade por ter sido útil ajudando alguém. Nem consegui agradecer porque minha voz não saiu. 

Diversas bandas tocam ritmos variados pelo percurso. Vi algumas bandeiras do Brasil e me arrependi profundamente de não ter levado nada que me identificasse como brasileira. O certo é que ver uma bandeira brasileira fez o coração bater mais forte, muito mais.

A entrada no Central Park é o máximo. O som parece que se amplifica e começa uma contagem regressiva de milhas e quilômetros. Na minha mente eu escutava o "Tema da Vitória", que tantas vezes ouvi nas vitórias do Sena na Fórmula 1.

A sensação de cruzar a linha de chegada é indescritível. Um misto de dever cumprido, euforia, agradecimento, cansaço, vontade de chorar, de rir, um quase não acreditar que fora possível, que conseguira, que todo o esforço valera a pena. É fantástico! É espetacular! É lindo! Sinto um arrepio no corpo a cada vez que me lembro dessas cenas.

A prova em si é o ápice, mas a cidade começa a viver a Maratona na semana que a antecede. Já é possível sentir o clima de festa ao desembarcar no aeroporto. Desde ali muitos já te desejam boa sorte. E preciso tirar o chapéu à organização - sem dúvida, nota 10. 

Há uma feira cheia de novidades e movimentadíssima. A Corrida da Amizade, que se realiza no sábado, e tem sua largada na frente do prédio da ONU, reúne pessoas de todas as partes do mundo, muitas vestidas com trajes típicos e cheias de euforia. 

Não posso deixar de dizer que, nessa minha estréia, tive a felicidade de contar com um grupo de pessoas muito especiais: Margaret, minha grande companheira, com quem dividi o quarto, os medos e as ansiedades que antecederam a corrida e também a felicidade, a alegria e a emoção da chegada. Ivo e a esposa Elisa, casal animado e muito atencioso. Jorge e a esposa Gisela, sempre muito simpáticos. E o presidente do CORDF, Adeilton, grande líder, em sua sétima participação que, além de dicas tão importantes, nos levou a percorrer os quatro cantos de Nova Iorque, cidade que parece não dormir, cheia de contrates e surpresas.

Claro que tivemos alguns contratempos, fatos, situações e reações inesperadas, mas nada que não possa ser superado, esquecido, deixado para trás, ao longo daqueles 42 km. Coisas muito pequenas, se comparadas à emoção vivida naquele dia 2 de novembro - que jamais esquecerei e que estará presente eternamente em minha memória.


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Sylvia de Albuquerque Carvalho

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