Maratona Internacional Ecológica de Curitiba 2003
por
Ronaldo Miguel

Ronaldo Miguel nos conta como foi a realização de seu sonho de criança: completar uma maratona. E para isso ele escolheu a difícil Maratona de Curitiba.


Já li vários textos nos quais os autores iniciavam dizendo como foram seus treinamentos mas vendo os meus não há nada interessante para registrar, pelo simples fato de terem sido normais, com longos, ritmados, intervalados e etc. Acho mais interessante falar sobre como decidi participar de uma maratona. 

Há muito tempo atrás, 1980 na aula de história ouvi a belíssima história do Soldado Pheidipedes e sua fatal corrida de Maratona à Atenas. Na mesma hora com apenas 11 anos falei "um dia correi uma maratona". O tempo passou e este pensamento jamais caducou, ia e voltava como ondas numa praia calma. Daquele dia para cá continuei me emocionando outros relatos, dos quais o mais forte e inesquecível foi a chegada da Sueca Gabriela Endersen na Olimpíada de Los Angeles 1984. Como sou militar do Exército sempre mantive meu preparo físico em dia, porém nenhuma corrida acima de 15 km. No entanto em março deste ano correndo com um amigo comentei que já tinha realizado todos os meus sonhos de criança, aliás, quase todos, e faltava algo relativo justamente ao que estava fazendo naquele momento (correr), correr uma maratona. Hoje reconheço que a partir daquele momento fiquei obcecado pela realização daquele sonho, que depois de tantas mudanças de datas por motivos óbvios de falta de condições físicas, ficou marcado para 16/11/2003. A temida maratona de Curitiba, um percurso inclemente, porém, com uma organização nota DEZ.

O grande dia chegou. Nada de mais, aliás, esta foi uma lei para mim. No dia da prova eu não experimentei qualquer novidade, repeti tudo nos mínimos detalhes. O mesmo café matinal, o mesmo par de meias, calção de corrida com cueca, camisa, vaselina, esparadrapo, enfim, tudo repetido religiosamente como nos treinos longos. Chegando no local da largada logo encontrei uma fonte de energia contagiante, Sr Tuplet Vasconcelos, 91 anos, lucidez total e muita vibração, emocionante. Fiz questão de uma fotografia com o maratonista mais idoso da prova e talvez do mundo. Após a foto comecei a me concentrar para prova. Um detalhe ótimo para entrar no clima de prova foi ver a largada das mulheres as 7:30 e a passagem delas novamente pelo ponto inicial após uma volta de 6 km em torno das 7:58'. Neste momento uma pausa para ouvir uma frase hilariante "Caramba!!! Essas mulheres são de aço já estão chegando". Acredite quem quiser o companheiro do lado falou sério, logo foi avisado que ali era o 6º km. Faltando pouco mais de 15 minutos para a largada dos homens, o sol chegou como quem diz: - Cheguei para ficar e vou com vocês até o fim".

A largada foi às 8:10 hs, saímos num clima de festa e descontração, com uma salva de palmas da multidão que emocionava qualquer um, parecíamos heróis. O percurso cheio de aclives e declives para mim é a marca registrada de Curitiba, começamos num declive que para quem estudou o percurso era anúncio de subida por perto, dito e feito. As subidas, ao contrário da maioria, para mim era a melhor parte, bastante movimento de braços e força muscular. Nossa! Como foi bom ter treinado bastante ladeiras, ultrapassei corredores que estavam com semblantes de dor e insatisfação nas subidas, justamente quando eu saboreava a parte boa da prova, principalmente por que não sou do tipo "velocidade máxima".

Miguel e o verterano Turplet na largada

Perto do 5º km vi um corredor muito novo correndo com um tênis do tipo futsal, fiquei assustado e por um instante tive vontade de avisar ao pessoal da organização. O meu susto foi tão grande que por um momento achei que era motivo suficiente para retirá-lo da prova. Pela primeira vez na minha vida eu torci e continuo torcendo, para que ele não tenha conseguido chegar nem no 10º km, ninguém merece um castigo deste, 42 km com tênis de futsal e velho, coitado.

Usei os primeiros 8 km como "aquecimento" e para entrar no meu ritmo. Isso mesmo, sou da opinião que ritmo de prova se vê no dia e não nos treinos, devido aos vários fatores exclusivo do dia da prova, como: temperatura, umidade relativa do ar, motivação, noite anterior e etc. Passei pelo 10º km com 48'15'', mesmo controlando a emoção estava mais forte do que planejei, é difícil se controlar com uma população maravilhosa incentivando. Sabia que a primeira metade da prova seria a de maiores aclives e declives, ao chegar no 21º já havia algumas vítimas da dupla sol e subidas, cheguei no portal da meia prova com 1:43'08''. Realmente dia de prova a gente se supera e eu ainda tive até o 20º km a companhia de um maratonista experiente, Carlão - 57 anos e várias maratonas sendo duas em Curitiba para menos de 3:30' - que o tempo todo ia me dando dicas para manter a passada, controlar o emocional encarando a prova mais racionalmente. A este companheiro de prova devo até hoje muito obrigado pelas dicas.

A partir do 23º km chega a trecho do Boqueirão, plano mas com um detalhe devastador para quem não estudou e se preparou para aquele momento. Vi pessoas quase gemendo ao olhar para a pista ao lado e ver os corredores voltando, quase 10 km para estar daquele lado e o sol cada vez mais presente. Por ter sofrido coisa parecida na Meia do Rio, ao ver o percurso pela Internet comecei a me preparar para aquela cena terrível e comigo foi tudo muito bem.

Cheguei no 30º km com 2:28'45'' aparentemente bem, mas com sintomas de queda, e que nos próximos quilômetros se declararia queda livre. Pensei "só falta mais 12 km, normalmente faço em 60' mas parece que não vai ser fácil". Realmente não foi, o que não imaginava era que seria tão difícil. Depois do 35º km, em franca queda, percebi que embora não estivesse sentindo nenhuma dor estava entrando em exaustão. Senti que concluir o percurso seria um trabalho 90% mental, a palavra de ordem era correr, simplesmente um pé na frente do outro e não parar de fazer isso. Áááááágua, muita água, e cadê a próxima placa? Deve estar errada, será que estão aumentando o percurso? Pensamentos como estes começavam a me atordoar. Percebi que naquele momento diminuir o ritmo seria prolongar o sofrimento. Aumentava o esforço a cada km mesmo não conseguindo manter a velocidade, talvez tenha feito os dois últimos km em 6'10''/km até o orgulhoso sprint de chegada, uns 200 metros a 4'50''/km. 

Chegada da Maratona Ecológica Internacional de Curitiba

Exaustão, nos últimos quilômetros ainda havia alguns carboidratos gel mas não queria me desconcentrar, só queria correr, correr e correr. Qualquer distração poderia me fazer parar, pois era este o recado do corpo. Após a pequena passagem pelo parque veio a subida redentora de todo sofrimento, lá estava a chegada (3:41'52'', 555º)! Quem me viu chegar se enganou, aparentava estar inteiro, mas na verdade estava moído. Sem saber, fui fotografado, está na ativo.com (Ronaldo Miguel), estou com os braços levantados comemorando, porém na verdade era um corpo sendo carregado por uma determinação heróica. 

Na chegada havia uns colchões para massagem que me hipnotizaram, quando percebi já estava deitado e dando a mínima para massagem, aliás, até dispensei. Mesmo sabendo que é errado, comecei a beber leite de soja, água, comer maçã tudo com voracidade. Resultado: coloquei tudo para fora. Ainda no hotel continuei passando mal, e num dos episódios saiu com um pouco de sangue, assustado fui para o hospital militar de Curitiba. Fui bem atendido e após um soro fisiológico na veia já estava pronto para outra, aliás, pronto para d e s c a n s a r.

A Maratona de Curitiba, apesar de algumas falhas, é excelente. Tem como marca registrada as subidas e a ótima organização. Não adianta reclamar do percurso, quem quiser que se habilite! 


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Caso alguém queira saber quais as falhas que eu achei na maratona de Curitiba, visite no fórum deste site o tema proposto por mim: AS FALHAS DA MARATONA DE CURITIBA. Tais falhas não foram comentadas aqui por não considerá-las oportunas neste espaço.

Créditos:
Texto copyright © por
Ronaldo Miguel da Silva, pára-quedista do Exército, auxiliar de enfermagem do Hospital Escolar da AMAN - Resende, Rio de Janeiro - onde é paciente cativo da Ortopedia e da Fisioterapia, maratonista por desafio.

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