Maratona Internacional Ecológica de Curitiba 2002
por
Luis Antônio Sturian

O treinador Luis Antônio Sturian, conta sua experiência "diferente", na maratona de Curitiba 2002, na qual ele quis sentir na própria pele o que realmente acontece durante a prova.


Fiz tudo diferente na última Maratona de Curitiba do dia 17/11/2002, precisava saber, ver e sentir o que realmente acontece durante a prova. Saímos de Piracicaba-SP, distante 500 Km de Curitiba, na sexta-feira do dia 15 de novembro as 6 horas da manhã. Fui dirigindo nossa Sprinter de competição com 9 pessoas. Chegamos a tarde em Curitiba e a noite fomos no marco zero de Curitiba que fica perto do nosso Hotel, jantamos pizza e tomei dois chopps geladinho para relaxar. 

No sábado, conhecemos os parques da cidade, almoçamos no bairro Santa Felicidade, num restaurante grande com rodízio de massas, desta vez tomei mais uma cervejinha para relaxar, com o calor que fazia estava uma delícia, aí um atleta nosso comentou com o outro que eu estava louco e não ia correr nada, não vão pensar com isso que sou "pingão", quem me conhece até pensa que só tomo suco. Está aí uma coisa que não posso indicar a ninguém que não é o momento para isso, mas tinha que fazer algumas experiências diferentes, cada um pode ter uma reação distinta nesse caso, confesso que meu intestino desarranjou um pouco a tarde, mas a noite voltou ao normal. De tardezinha fui relaxar na piscina, dormi 1h30m, a noite tomei uma canja de galinha que ninguém é de ferro.

Acordei no domingo as 6:30 horas da manhã, tomamos nosso café gostoso, comi bem pouco. Está aí outro detalhe, as reservas de carboidratos já foram feitas, percebi que outro corredor desconhecido estava se esbaldando no café do Hotel, isso é errado porque com certeza pode ter um desarranjo intestinal durante a corrida, depois fomos para a largada que era ali pertinho.
Alguns detalhes nessa primeira parte: O Nelson Piquet dormia ao volante do carro antes da corrida para relaxar; o Português Carlos Lopes, ganhador da São Silvestre de 1982 e 1984, tomava uma cervejinha um dia antes da corrida. Então, veja quanto é importante o psicológico antes da competição, tem atleta que é leão de treino, ganha do companheiro, mas perde nas competições; isso pode ser porque não consegue um relaxamento, fica extremamente preocupado antes da prova, deixando a musculatura totalmente tensa, prejudicando seu desempenho. 

Nós técnicos, devemos dar mais atenção para esses detalhes, não se prendendo somente aos específicos, numa competição de velocidade, quer seja atletismo ou natação, é comum leões de treino não apresentar bons resultados em competições, inclusive aquele amigo que perde nos treinos vencem o companheiro nas provas, tensões de ordem psicológica pela competição podem estar atrapalhando e comprometendo resultados. As próprias reuniões exigentes dos técnicos com os atletas na véspera, favorecem os maus resultados.
 
O que fiz em Curitiba foi buscar o prazer das corridas, relaxar e compartilhar daquela maravilhosa festa. Em todos os postos de água tomei pelo menos um golinho, aí devemos ter o cuidado para não tomar demais, por osmose vai para o estômago, complica a corrida, pode ocorrer hiponatremia, que é a super hidratação fazendo com que o excesso de água dilua o sódio na corrente sanguínea, fazendo que mais água entre dentro da célula, gerando inchaço da mesma (ver Revista Contra-Relógio edição de Julho/2002 - página 46 por Liane Beretta - Bióloga e mestre em fisiologia do exercício). Não consumi BCAAs, gels de carboidratos, isotônicos e outros suplementos alimentares, algumas pessoas desarranjam o intestino tomando isotônicos ou algum tipo de gel, não que seja contra, mas prefiro me hidratar com água, já tomei isotônico por sentir vontade durante a prova, o próprio corpo sugere, acompanhei alguns artigos e palestras de conceituados nutricionistas que não são muito adeptos desses suplementos e fazem um excelente trabalho através de uma boa e disciplinada alimentação, aliás eles estão com preço muito alto, tornando inviável para a maioria dos atletas. Temos ricas fontes de energia naturais, os cereais, grãos e as frutas, suprem tranqüilamente nossas necessidades, como exemplo a própria banana tem preço bem acessível e muito mais barata que os suplementos. Nas academias, os suplementos estão sendo consumidos de forma desenfreada e sem controle, nós que treinamos mais forte sentimos isso, se você deixar um pouco de maltodextrina molhada na pia e pegar com a mão, vai perceber que ela gruda como uma cola, quem consome muito e tem treino pouco intenso, vai ter problema com os rins, ele tem que trabalhar muito para filtrar, nesse caso muita água é necessária, sem contar com a cirrose hepática, aí um sucessivo esforço de todo o metabolismo para brigar com tudo aquilo que foi despejado para dentro do corpo. Portanto, vale também para nós atletas de corrida, para não consumirmos aleatoriamente os suplementos, nesse caso, o melhor a fazer é ter um trabalho dirigido por um nutricionista, que fará um estudo das necessidades, colocando tudo na medida exata para cada caso, principalmente ele vai responder se alguma coisa der errado nesse sentido.

Agora vamos aos 42.195m, na minha preparação o único percurso longo que fiz foi o revezamento do Pão de Açúcar onde corri os 21.095 a meia maratona, depois foi só uns treinos de no máximo 17 km mais ritmados e intervalados, por último os 17.850m da Volta da Pampulha. Meu tempo em 10 Km é de 39 a 41 minutos e o da meia maratona é cerca de 1h32m. Portanto era evidente que não teria ritmo para suportar os 42.195m, fiz a programação para correr 30 Km e a partir daí, faria 1 km caminhando e 1 km correndo, como corro com o Polar Accurex e passo tudo no computador, fiz um ritmo de 5 minutos p/ km, os batimentos ficaram bem abaixo do meu limite, dessa forma fui até os 30 Km sem muito problema, comecei a sentir um pouquinho somente pelo km 27 quando o calor já era grande. Passei a caminhar 1 km entre 10/11 minutos e correr 1 km a 4'40"/4'50", percebi que ficou tudo fácil porque 1 km passava rapidinho e não queria comprometer futuras competições. Completei a prova em 4:00:01 (ver www.chiptiming.com.br) atleta de nº 0283 Luis Antonio Sturian, o que senti é que a "falta dos percursos longos foi o diferencial, principalmente para nós amadores". Agora entendo alguns atletas que fazem muitas maratonas por ano, eles têm um pouco de rodagem, então controlam a corrida e terminam até bem, mas com um tempo relativamente alto, perto de 5 horas, na verdade fica o "esporte pelo esporte", tornando-se prazeroso completar a prova, principalmente de participar de uma grande festa esportiva, onde a satisfação é tanta do tamanho de uma "maratona". Passei a entender o nosso amigo "Português" que faz tudo que é maratona, terminando até bem mas depois das 5 horas de prova, ele tem um pouco de rodagem, então termina as corridas numa boa. Ficam duas observações: 1ª.- treinei somente percursos de 15 a 17 km mas com ritmos mais forte e intervalados, faltaram os longos, nesse caso não teria reservas para ir até o final correndo no mesmo ritmo; 2ª.- Quem faz somente longo, perdem em ritmo, nesse caso os tempos finais ficam mais altos e não melhoram a performance, então, faltam os treinos de velocidade (intervalados, ritmos, fartlek). A conclusão do meu rendimento é que mesmo sem longo, a estratégia me fez chegar num tempo até razoável, deve-se também aos treinos de melhor qualidade, veja que não tive volume nem muitas horas de preparação, nesse caso não podemos colocar a maratona como um "bicho-de-sete-cabeças", tão pouco fazer coisas mirabolantes, devendo encarar mais de forma lúdica e prazerosa, respeitar os limites do corpo, seguir um protocolo pré-estabelecido são fundamentais para o sucesso final, "simplicidade" e treino acima de tudo. Na nossa equipe (VOU TREINAR), tivemos o LIMA que fez 2:39:38 e foi 3º na categoria 45/49 anos (recebeu R$ 400,00 de prêmio); o Alexandre Bazzo que fez 2:58:29; o Klever Coral com 3:13:28; o José Teixeira Leite com 3:26:29; "eu" Luis Sturian 4:00:01; Luiz Gutierrez com 4:33:33 e Francisco Aguiar 4:36:28. Cada um dentro de sua performance e capacidade.

Agora vem alguma coisa que observei durante o percurso:
- Corredores se arrastando para completar o tão longínquo 42.195m, nesse caso acho errado e nunca saudável submeter o corpo naquele sacrifício. Sempre que vi alguém assim incentivei a caminhar para não se machucar, mas é uma maratona, o povo e as demais pessoas incentivam à ir para o martírio, uns vão até razoavelmente, outros!!!!!
- Numa avenida antes de virar no Jardim Botânico, tinha uns cinqüenta corredores pelo caminho, um fato curioso chamou minha atenção que até comentei com alguns, "não tem ninguém correndo, dêem uma olhadinha, todos estão andando";
- Também passou por mim pelo km 33 uma atleta correndo totalmente "torta" no sentido real da palavra e sofrendo muito, percebi a garra e vontade de terminar os 42.195m, sinceramente não acho que estou desestimulando com minha posição, na minha opinião é muito esforço e agressão ao nosso corpo que não merece tudo isso, a preparação tem que ser melhor e adequada a cada caso;
- Mais para frente outro atleta fez um comentário muito interessante: -"É difícil demais, mas é gostoso e o maior barato esse negócio";
- Pelo caminho as pessoas oferecem de tudo, laranja, coca-cola, água, enfim dão o maior incentivo;
- Tinha uma bandinha perto do km 13, muito estimulante e bacana isso;
- Um Curitibano de nome Eduardo foi junto comigo, fui perguntando tudo a ele, que foi me relatando todos os bairros que passávamos, no centro velho (marco zero de Curitiba) e demais locais, acho que abusei dele porque ficou depois do km 23, um abraço Eduardo, se ler essa matéria me envie um e-mail;
- Também percebi que muitos corredores saem totalmente de seus ritmos, consigo ver pela expressão e pela ventilação excessiva, tanto que um deles comentei com o amigo Eduardo e não deu outra, aquele corredor ficou pelo caminho mais a frente, isso é o que mais acontece entre os amadores, utilizam todo o estoque de glicogênio muscular já no meio da prova;
- Outros já ficam pelos 10 km iniciais, saíram num ritmo alucinante, ví um atleta amador totalmente pálido nesse ponto da prova;
- Usei uma camiseta nova e mais pesada, resultado: - após 10 km tive que tirar a camiseta porque machucou os "peitos" (mamilos), sangraram manchando a camiseta e a partir dali corri com ela no pescoço, coisa de amador!!!;
- Corri os últimos 2 km, tinha condições de terminar em melhor colocação, mas fiz 4:00:01 inteiro, não seria melhor do que fazer 3:35:00 quebradinho??!!!!!!Terminei a corrida e ainda dirigi por 10 horas de volta a Piracicaba, como se não tivesse corrido uma maratona. 
No fim deu tudo certo, foi uma excelente passagem por Curitiba, a mais bonita e organizada cidade do Brasil. Da próxima vez vou levar uma máquina fotográfica para registrar esses fatos que dá uma reportagem bacana e interessante. Em Nova Iorque no ano de 98 fiz isso, fui fotografando tudo pelo caminho, lá fiz 3:31:53.


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CONCLUSÃO FINAL: A maratona tem duplo objetivo, em primeiro os que almejam performance e resultados; em segundo aqueles que fazem a festa ficar bonita, correm simplesmente porque gostam, pelo prazer de correr, ver as paisagens, olhar tudo despretensiosamente, fazer amigos, e como já disse o "esporte pelo esporte" é valioso, no final os atletas sentem-se com uma felicidade tão grande do tamanho de uma "maratona".....

Saudações Esportivas,

Profº Luis Antonio Sturian/CREF 04064-G/SP
Colaborador do site www.copacabanarunners.net
Diretor da Equipe VOU TREINAR de Competição
Site: www.voutreinar.com.br
E-mail: voutreinar@voutreinar.com.br


Créditos:
Texto copyright © por Luis Antônio Sturian

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