Maratona Internacional da Califórnia
por Marcos Rodrigo Siqueira

Acompanhe a experiência de Marcos que completou a sua primeira maratona em Sacramento com um tempo melhor que o esperado, apesar do trem. 


Tem coisas na vida da gente que só vivendo pra ver como é. Já li vários relatos, ouvi várias histórias e conversei com muita gente experiente sobre correr uma Maratona. Mas realmente senti-la nos pés era uma realização que eu precisava fazer por mim mesmo.

Quando cheguei aqui no Norte da Califórnia, há 3 anos atrás, costumava dizer pros colegas aqui que eu costumava correr no Brasil. Na realidade isto se resumia em Domingos de manhã, uma volta de 5 Km na Lagoa do Taquaral em Campinas-SP e uma prova da Integração em 1999, de 10 Km. Então aqui resolvi me inscrever em provas de 5 km, 10 km e 12 km. Percebia que, além de serem muito mais caras na inscrição, o espírito era de festa geral. Até que eu obtinha resultados na média dos corredores por aqui, e isto me animava. Mostrava que eu não era tão mal assim pra curta distância.

Até o dia em que me convidaram pra fazer parte de um grupo de entusiasmados por correr e treinavam juntos. É um grupo de uns 20 a 30 integrantes, e de todos os tipos de pessoas: os que queriam correr pra emagrecer, pra melhorar o tempo, pra praticar, porque gostavam, etc. E de todas as classes idades e profissões. Eles corriam de terças e quintas - feiras as 5:30 da manhã algo em torno de 6 milhas (10 km), sábados mais 9 milhas (15 km) e domingo os longos de 20 milhas (32 km). Estavam começando um grupo novo as quartas-feiras a noite (6 da tarde) patrocinados por uma loja especializadas pra corrida, portanto teriam, gratuitamente pós corrida, algumas amostras da loja, tipo repositores, isotônicos, barras energéticas, gels, etc. Comecei de Quarta porque os outros dias eram muito cedo pra mim, além de ter que trabalhar e ir na faculdade a noite e eu nem sabia se eu acompanharia-os. Encurtando: Recebi uma tabela pra treinarmos em 16 semanas até a maratona em Sacramento, capital da Califórnia, em dezembro. Minha reação foi imediata: Maratona! Minha chance de correr uma e terminar se treinar desde já.

Foram 15 semanas acordando antes das 6 da manhã aos domingos para fazer treinos longos e táticos. Como não corria com eles, exceto quarta a noite, eu tinha que fazer um número mínimo de milhas por semana, na hora do meu almoço, ao redor da empresa. Começamos no verão, por isso do horário de começar os longos eram 6:30 da manhã e a maratona era no Frio (e nem era inverno ainda). Corríamos com chuva, sol, frio, calor, mas quase sempre por caminhos diferentes, trilhas, pisos e com distância muito bem estudas. Todos lá. Nunca menos de 12 corredores. As vezes contávamos com ajuda de alguém para ir nos buscar nos no final do percurso. Iam de Van e nos levavam de volta onde costumávamos deixar o carro. Tínhamos que pagar a lavagem da van depois, mas o cheiro nunca mais saiu. Participávamos de corridas locais 12 km e meia-maratonas. A loja resolveu nos patrocinar. Mas era dando as roupas, camisetas, shorts e meias com o emblema da loja. Os americanos adoravam, especialmente porque tinha uma banderinha americana no canto superior esquerdo do peito. Eles nunca entenderam porque eu me recusava a usar aquilo. Mas só de inscrição de provas gastávamos mais que todo o material usado. Uma meia-maratona custa 40 dólares e uma prova de 10km 25 dólares. Ganhávamos uma camiseta comemorativa e gatorate após a prova. Mas todos felizes. A renda da prova ia para instituições de caridades locais que prestavam contas pra todos no mês seguinte. Corriam por uma causa, era a frase de todos eles.

Fiz minha inscrição para a maratona da Califórnia (50 dólares porque fiz 2 meses antes. Conforme ia chegando mais perto ia ficando mais caro). Faltavam 7 semanas e eu não sabia se estava confiante em terminar a maratona. Recebia incentivos de todos, dicas e sugestões. Eu já não corria com o bloco dos retardatários nos treinos, mas também não com os rápidos. Era intermediário rápido.

Até que chegou a Décima sexta semana de treinos e a no domingo era a grande prova pra mim. Foi a semana de segurar nos treinos e economizar pra prova. A ansiedade era grande e a vontade de correr também. O tempo estava feio pra um brasileiro: frio e chuva gelada, média de 5 a 8 graus Celsius durante o dia. Estava temendo o dia da prova com frio, como nos anos anteriores. Eu tinha uma camisa de mangas longas de um material que mantinha meu corpo 5 graus acima da temperatura corporal. Mas eram graus Fahrenheit e só a parte superior do corpo. Eu precisava superar esta barreira também. Treinei a noite pra me acostumar ao frio. Foi horrível.

A largada da prova era às 7 horas da manhã de domingo, 7 de dezembro. No sábado choveu o dia e a noite inteira. A temperatura foi de 4 graus no sábado. Como não poderia parar carros na largada da prova, a organização disponibilizou ônibus pra levar os atletas da chegada, onde tinha que pagar 15 dólares por qualquer estacionamento local, até a largada. O preço do ônibus era de 10 dólares. Organizamos uma caravana e algumas esposas nos levaram até a largada. 6:15 estávamos lá. Minha esposa disse que estaria na chegada e se eu não chegasse em 4 horas e meia ela iria estar esperando em um ponto em comum pra não nos perdemos... Mas aquilo soou pra mim "caso você termine..."

A prova teve mais de 5.000 inscritos e o sol não tinha nem nascido. Um frio e apenas banheiros portáteis disponíveis e 5 ônibus que estariam pegando sacos plásticos com o número da inscrição do atleta, onde deixariam os agasalhos pra pegarmos no final.

A Largada foi as 7:08 porque eles estavam esperando o nascer do sol. Sim, teve sol e o tempo indicaria que seria bom. Muitas emissoras de TV's, jornais e amigos e conhecidos na largada. A cada milha tinham dois voluntários que um dizia o tempo oficial de prova até ali e outro o "pace" (ritmo). Eu comecei correndo com um amigo que queria fazer em 3 horas e 40. Mas a minha meta era de fazer em torno de 4 horas por se tratar do meu ritmo nos treinos. Foi o tempo recomendado pelos meus companheiros de treino. Tinha uma estação de água e isotônico (marca Altima-novo pra mim) a cada 3 milhas. Os copos descartáveis eram enchidos minutos antes e entregues por voluntários na mão de cada um. Você até podia pegar dois, mas precisava ir devagar na estação e beber rápido pra pegar o outro. Muito bem controlado. Comecei a beber algo depois de 1 hora de prova. Eu carregava meu gel que tomava com água nas estações. Na milha de número 9 meu companheiro precisou parar pra ir no banheiro e manteve um ritmo mais lento que o meu. Até achei bom, porque ele falava o tempo todo, em inglês, e isso exigia que eu prestasse atenção na conversa e não me concentrava tanto na prova. E pela descrição dos treinos dele, ele não estava tanto assim pra 3:40 na maratona.

Tiveram umas 10 bandas tocando músicas ao vivo no decorrer da prova. Todos os estilos de música. Cartazes e faixas de incentivo e narrações espalhados.Tinham milhares de pessoas em todo o trajeto da prova incentivando, batendo palmas e dizendo palavras de incentivo. Foi até engraçado, porque consegui manter meu ritmo de 8:30 min/milha (5:16 min/km) até a milha de número 22 (km 35). Depois disso minha performance caiu e meu esforço era maior pra manter correndo. E o pessoal dizia assim : "you looks good! Great job!" (você esta bem! Grande trabalho!) e eu ali com cara de Emil Zatopeck acabando uma São Silvestre: acabado!

Quando cheguei na milha 23 me dei conta que não havíamos corrido uma distância tão longa quanto essa nos treinos. Era meu recorde de distância. Mas meu objetivo era terminar. Fiz uma breve análise: As pernas estão OK, um pouco doloridas mas não querem parar. É só uma questão de respirar fundo e terminar agora como se fosse uma prova de 5 km (3 milhas até o final). Nessa altura já nem ligava pro vento frio no rosto. Ao chegarmos no centro da cidade de Sacramento, as ruas ficam estreitas e ter mais gente acompanhando e menos gente correndo comigo. Faltando uma milha uma cancela num cruzamento de estrada de ferro fecha na minha frente. Um trem nos obrigou a parar por quase 3 minutos. Tiveram reclamações e eu aproveitando pra fazer minha primeira parada pra pegar fôlego. Dei conta que eu não tinha parado até ali, mas que o ritmo havia caído bastante. Fiz alguns alongamentos enquanto aguardava e mal o trem acabou de passar e a cancela não tinha subido, lá foi eu e agora um pelotão de corredores revitalizados. Cheguei nos últimos 100 metros e olhei pro relógio e estava abaixo de 4 horas. Não acreditei mas não quis olhar o relógio novamente. 

Chegada da Maratona Internacional da Califórnia

Comecei a procurar por minha esposa que disse que estaria próximo da chegada. Não conseguia prestar atenção em mais nada, só queria achá-la, mas como com tanta gente por ali... Afoitos me passavam querendo mostrar que estavam acabando bem e eu nem ligava... estava acabando quando ouvi aquela voz me chamar no meio da multidão e naquela altura o único "Morzão" naquele meio de americanos só podia ser eu. Os olhos delas estavam cheios de lágrimas mas tinha um sorriso acolhedor e muito feliz. Tive tempo de olhar pro relógio oficial e ver que estava cruzando em 3h:52m:22s. Foi o número que vi. Minhas pernas mal queriam parar e a emoção me tomava conta. Quando entrei no funil e vi o responsável por recolher o Tag da inscrição, falei sem querer em Português mesmo: "Eu consegui!" e como se ele tivesse entendido, ele me disse: "Good Job!". A próxima parada foi pra receber a medalha da prova e depois veio minha esposa querendo me beijar e eu querendo ar. Recebemos uma garrafinha de água e um papel de embalagem de ovo de Páscoa brasileiro nas costas "pra manter a temperature" disse a voluntária. Depois disso tinham meias- bananas, meias- laranjas e meio bagel (pão popular americano) tudo controlado novamente. Fiz os alongamentos no que restavam das minhas pernas e fui pegar meu agasalho da largada. A caminhada até o carro foi terrível mas me sentia muito realizado. Fomos pra academia onde somos membros pra eu tomar banho e fazer hidromassagem. Lá estavam outros companheiros, acabados também e muito felizes pelo meu tempo. Pesamos naquela mesma balança no sábado anterior e eu estava com 174 pounds (79 Kg). No domingo depois da corrida estava com 161 pounds (73 kg). Seis quilos em 4 horas. Eles ficaram preocupados com a possibilidade de desidratação. Mas eu estava legal.

Depois desta prova eu digo que agora eu sou um Maratonista! E meu próximo objetivo é correr a São Silvestre pra comemorar com o meu povo. 

Em frente ao capitólio, palácio do Governo do Estado.

Apesar do contra-tempo do trem, todos elogiaram muito a organização da prova, do tempo e disseram que o preço era mais que justo...Recebi uma camiseta branca com um embleminha na frente e um monte de patrocínio nas costas, uma medalha, o BIB - número da inscrição, águas durante o percurso e água no final, além do papel de ovo de Páscoa não impresso. Fiquei pensando nos 30 reais da de Curitiba e as descrições / discussões obtidas no fórum....

Minha próxima maratona será a de Big Sur em Abril. Caso não pinte a possibilidade da de Boston antes. Porque a que eu queria mesmo era a maratona das Águas, de Amparo a Águas de Lindóia, mas nesta época do ano ninguém tem férias por aqui pra escapar pra aí...

Website da prova: www.runcim.org
Observe que o trajeto é plano e ainda é gradualmente em declive até chegar a altitude do nível do mar. 


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Crédito:
Copyright © por Marcos Rodrigo Siqueira

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