A Conquista de Big Sur
por Rodolfo Lucena

Rodolfo Lucena relata sua experiência correndo a Big Sur, considerada uma das mais belas maratonas do mundo. Além de bonita - com montanhas, penhascos, ondas quebrando nas rochas - esta maratona também é bem desafiadora com suas montanhas e íngremes ladeiras.


M
ontanhas, montanhas, montanhas e mais montanhas. De um lado, o mar batendo nas rochas, espumando vigoroso, rugindo, mas também quebrando calmo em pequenas praias solitárias, inacessíveis. De outro, mato, árvores, campos. No caminho, longas, íngremes ladeiras. E vento, vento, muito vento. É a Big Sur International Marathon, aclamada a mais bela maratona do mundo, temida como uma das mais difíceis.

Foram esses predicados que me seduziram, há dois anos, quando uma fratura por estresse na tíbia direita me deixou fora das ruas por quatro meses. Tive de repensar meus planos de corridas. Big Sur virou meu objetivo.

Mais de 10 mil corredores participaram do evento, que aconteceu no dia 29 de abril de 2001. Além da maratona, houve também prova de revezamento, caminhada de 21 km e corrida de 5 km. É uma festa que todos os anos toma conta de Monterey, cidade histórica e turística a 208 km ao sul de San Francisco, na Califórnia. Durante exatas cinco horas e meia, a Highway 1, estrada que serpenteia pelas montanhas, margeando o oceano Pacífico, fica fechada entre a reserva florestal de Big Sur e a belíssima Carmel, praia refúgio de ricos e muito ricos.

Somente os corredores podíamos subir até o ponto da largada, no Pfeiffer State Park, em Big Sur, e exclusivamente nos ônibus fornecidos pela organização da prova. A organização e os serviços eram impecáveis. Bancas com bananas em pedaços, laranjas cortadas, isotônico e água. Montes de banheiros. Música. Um locutor anunciava quanto tempo faltava para o início da prova.

Houve uma revoada de pombos brancos, foi cantado o hino norte-americano. O locutor avisou que faltava um minuto, depois 30 segundos, dez segundos, largada!

Cheguei a ficar com os olhos molhados, mas correr, que é bom, nada. Caminhando no meio da multidão, que, aos poucos, se movimentava, levei mais de um minuto até passar pela faixa de largada e só então comecei a dar passadas que imitavam alguém tentando trotar.

A cada milha, indicada por marcos na forma de violoncelos gigantes de madeira, um voluntário gritava o tempo transcorrido e outro informava a média por milha, informando o tempo total previsto para aquela média. Lá pela quarta, a minha já estava em menos de dez minutos por milha (6min15/km).

Quando, depois de uma subida em curva para a esquerda, vi o mar pela primeira vez, batendo nas rochas, lá em baixo, comecei a acreditar que talvez fosse mesmo a maratona mais linda do mundo. A cada milha, éramos recepcionados por uma banda ou grupo musical. A cada intervalo de duas milhas e pouco havia uma estação de abastecimento.

Haja abastecimento! Começa com água, depois isotônico, a seguir frutas e por fim esponja molhada para jogar água na cabeça e nas costas. Montes de latas de lixo para garantir que o mínimo possível vá parar no chão. Uns metros à frente, uma bateria de banheiros.

O único incômodo era o vento frio. Mas, àquela altura, eu, ainda bem forte e descansado, não sentia muito.

Big Sur Marathon.
Foto gentilmente cedida pela Big Sur Marathon
Fotógrafo: Robin Way. 

Começou a primeira subida mais forte. A paisagem ficou mais selvagem, as encostas da montanha já passavam a ser escarpas, as ondas espumavam nas rochas.

Logo deu para ver o que vinha pela frente: lá longe estava o caminho que levaria ao Hurricane Point. Antes, tinha de subir mais um pouco e depois rolar lomba abaixo, dando uma boa acelerada, mas sem perder o controle. Cheguei ao ponto mais baixo, a cerca de 20 metros acima do nível do mar, e comecei a subir. Passei a décima milha (km 16) com 1h32, já no passo que seguiria mantendo quase ao longo de toda a prova.

Os americanos podem falar as barbaridades que quiserem daquele morro -e é um senhor morro, como mais de duas Brigadeiros empilhadas-, mas ele não mata ninguém, ou pelo menos ninguém que tenha treinado com afinco e se jogue para manter o ritmo.

Foi o que fiz, ainda parando para mais umas fotos. Quando vi, meus amigos, estava no tal Hurricane Point. Dei um berrão, daqueles bons, em português: "Vambora pessoal, que agora é só lomba abaixo!".

Claro que eu mesmo estava me enrolando. Bastava ver a altimetria para saber. Mas resolvi seguir no "me engana que eu gosto" e fiz as milhas mais legais da prova, do ponto de vista pessoal, até lá pela 16, quando finalmente encostei na previsão de chegada em quatro horas -o que era muito melhor do que eu imaginava (minha estimativa era terminar em 4h15, talvez 4h20, considerando que tinha feito 3h53 em Porto Alegre, no ano 2000, na minha segunda maratona).

Big Sur Marathon
Foto gentilmente cedida pela Big Sur Marathon
Fotógrafo: Douglas Steakley. Clique na foto ampliar
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Mas na milha 18 dei uma fraquejada. O caminho era mais ou menos plano até a milha 20 (32 km), com algumas inclinações, uma ou outra lombada. Mas vinha o vento, agora mais poderoso. Numa curva, empurrava pelo lado. Quando soprava de frente, parecia me segurar.

As costas estavam doloridas, o pescoço começou a endurecer, anunciando um torcicolo daqueles. A cada subida, as coxas pareciam empedrar, as panturrilhas teimavam em não querer obedecer, as passadas ficavam mais curtas. Na milha 21, a previsão de chegada estava em 4h04 e subindo.

A essa altura já estávamos chegando a uma parte menos selvagem, habitada de longe em longe. Mais gente surgia de vez em quando na estrada, aplaudindo, incentivando. Alguns gritavam o meu nome, que eu levava escrito no peito. "Way to go, Rodolfo!" "Good job!" 

Não tão bom, porque a previsão continuava 4h04 na milha 23. A temperatura, lá pelas 10h30, estava mais alta, talvez uns 15 graus, o sol brilhando forte, mas nada que se pudesse chamar de calor. Aliás, com o maldito vento, eu até torcia pelos trechos mais ensolarados.. Quando eu vi, estava na milha 25, só faltava uma e ainda os tais 195 metros que matam.

Uma baixinha que eu tinha deixado para trás voltou a me superar, um outro sujeito me passou também faltando 500 metros, lá na frente eu via uma garota de camiseta laranja em que estava escrito "26.2 Dream a little, sweat a little" (Sonhe um pouco, sue um pouco). Ela havia me passado algumas vezes desde a milha 16, eu tinha dado o troco outras tantas.

Fui! Passei a baixinha, a outra, o cara de calção azul, estava entrando no funil, um fiscal encaminhou a garota de camisa laranja prum lado, fui pro outro, cheguei!

Big Sur Marathon - Rodolfo em frente à bandeira do Brasil

4h02min11 marcou o relógio oficial. 4h01min16 foi o meu tempo para as 26,2 milhas.

E no final ainda vi a bandeira brasileira tremulando ao lado das de outros 20 países. Ela estava lá por mim, fui o único brasileiro na prova.

Fui o número 655 entre 2.560 que tiveram seus tempos registrados, de um total de 4.014 inscritos. O campeão, Arsenio Ortiz, fez 2h25min38. A vencedora foi a russa Janna Malkova, que correu em 2h46min41.


PS1: Depois de publicado este relato na revista "Contra-Relógio", recebi e-mail de Ewaldo Russo, de São Paulo, contando que ele também participou da maratona de Big Sur, tendo completado o percurso em 4h34. Então a bandeira do Brasil estava lá por nós, o que não diminui em nada a emoção que senti.

Registro que a informação de que eu era o único brasileiro foi passada por e-mail pelo diretor da prova, Wally Kastner.

PS2: Leia o relato completo e veja fotos de minha participação no evento no site www.geocities.com/rodolfolucena . O site da prova é: www.bsim.org


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Crédito:
Texto copyright © por
Rodolfo Lucena.
Rodolfo Lucena é editor do blog + corrida e autor do livro Maratonando.

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