As Águas de Lindóia!
Relato da Maratona das Águas 2004 por
Ronaldo Miguel da Silva

Depois de realizar o seu sonho de completar sua primeira maratona, em Curitiba, Ronaldo Miguel pensou que voltaria à sua rotina, porém resolveu enfrentar um desafio ainda maior: a Maratona das Águas


Quando acabei a maratona de Curitiba disse que já tinha realizado meu sonho e voltaria às minhas rotinas, futebol aos sábados, praticar minhas lutas e levar minha vida livre da planilha de treinos. - Chega! Bom... No fundo eu sabia que já não tinha como voltar, era irreversível e aqui estou para contar como foi a maratona das águas.

Tive a felicidade de criar o debate "maratona das águas/2004 treino e dicas" já em dezembro/2004, convidando todos deste site para participar. Ali obtive informações e fiz novos amigos para a prova, sobre os quais falarei mais à frente.

Vamos logo para o início da prova, que para mim é na véspera. No caminho para o jantar de massas e recebimento do kit percebi que o desafio seria muito mais difícil do que pensei. Senti medo da prova, coisa que desde as minhas primeiras aventuras pára-quedistas não sentia, até brinquei no ônibus "vou só jantar e pegar minha camiseta, nem vou retirar o chip, vou desistir de correr hoje mesmo" alguns riram, mas se eu não controlasse o medo esta brincadeira passaria a ser considerada como uma possibilidade. O jantar transcorreu muito bem e ainda tive a oportunidade de conhecer o Fernando Fragoso companheiro que já deixou seus valiosos relatos neste site. Na oportunidade conversei com ele e deixei claro que diante do percurso refiz minha meta para 4 horas e 15 ou 30 minutos, realmente fiquei impressionado com as subidas. Gentilmente ele me deu uma animada, mas não escondeu que a prova seria dura, obrigado.

Preocupado com a Significado dos Sonhos
insônia que já me consumia há uns cinco dias, dormi um pouco à tarde e deixei para ir dormir à meia noite, mesmo assim foi duro conseguir relaxar. Como já li num relato "na véspera a gente não dorme, aguarda a largada", por volta das quatro já estava acordado e esperando pelo menos clarear para me levantar.

Chegando ao local da largada tive a satisfação de conhecer o amigo de debate, o Teles, trocamos cumprimentos e nos desejamos boa prova. Dada a largada parti para a briga, fui encontrando o meu ritmo e percebendo que estava bem mais rápido do que imaginei. Primeiro comecei a achar que as placas de km estavam erradas e depois falei para mim mesmo - vamos ver no que vai dar! Durante toda prova fui emparelhando com outros corredores e tentando conversar um pouco, alguns não respondiam. Aos que aceitaram minha companhia perguntava logo para quanto estavam correndo e respondiam sempre tempos abaixo de quatro horas. Já no 5º km senti meus dedos doerem e tive a triste certeza que no final da prova sentiria pena dos meus pés, dito e feito, bolhas para todos os lados e uma unha esperando para ser arrancada.

Lá pelo km 13, vi um corredor caindo vítima de cãibra, olhei para os lados e constatei que não havia por perto qualquer apoio, que pena, não posso parar e ele está mal, continuei correndo como os demais atletas. Ao chegar perto não tive como negar ajuda para um alongamento, perdi menos de um minuto e ganhei a paz na minha consciência, percebi que nem sempre correr é o mais importante, que bom! 

O fato de o campeão do ano passado ter andado em alguns trechos da prova me deixou muito mais descontraído e abusado, nas descida eu comecei a impor um ritmo muito forte e os meus tempos parciais estavam me deixando empolgado, já que estava dando certo fui aproveitando e "puxando" cada vez mais forte. Lá próximo dos 30 km vi outro corredor sentado se alongando, "ufa! Não vou precisar parar, ele já está se alongando", o corredor da minha frente deu um copo de água e eu saquei um sache de carboidrato gel com isotônico e passei para ele (vale lembrar que estava sobrando, pelo medo levei a mais e não iria precisar).

Sobe, desce, sobe, desce, sobe, desce e finalmente chegou a dupla de fantasmas para esta maratona, a barreira do 35º km junto com a muralha de 260 metros de subida do 36º ao 39º km, pauleira pura! Neste momento já tinha algumas pessoas andando, mas daí para frente difícil foi ver alguém correndo. Já estava me sentindo imbatível quando o companheiro de prova (108º colocado) começou a andar. Foi como se aquilo fosse a autorização para eu andar também. É engraçado, durante a prova começamos a fazer companheiros e estabelecer amizades que parecem existir a tempos. Este era um caso, já estávamos correndo na mesma passada aproximadamente desde o km 26 e fomos juntos até a chegada. Aí pelo 39º outros foram se juntando, e eu disse qual seria a minha tática dali para frente "correr devagar e andar depressa", nós cinco chegamos no mesmo minuto, foi uma sucessão de troca de colocação, anda, corre, anda, corre, anda, corre. Pelo 41º km um dos amigos parou com cãibra e eu que já me considerava quase parente dele parei para ajudá-lo. Alonga, puxa, estica e 20 segundos depois lá vamos nós de novo. A chegada cada vez mais DISTANTE e todo mundo dizendo "já está chegando", infelizmente não sei traduzir em palavras as sensações dos últimos 1500 metros (só quem já correu uma maratona para saber), uma mistura de emoções com espaço até para irritação, e todo mundo falando "já está chegando" pura mentira, ainda faltava milhares de centímetros, nessa hora os centímetros é que contam e todos continuavam dizendo "já está chegando". Mais uma curva no caminho e lá está o pórtico de chegada.

Neste momento achei desleal dar um sprint de surpresa e passar os amigos, então comecei a falar que agora era a chegada e que seria a arrancada final, falei também para o carioca que estava à minha frente "corre que eu vou passar todo mundo" e foi para mim a chegada mais emocionante que já vivi. Cinco atletas no limite das suas forças disputando com muita lealdade cada segundo e brigando por cada posição, foi lindo! Ao cruzar a linha de chegada todos nos cumprimentamos e nos parabenizamos. Inclusive o 108º que conseguiu manter sua posição e ganhou um bonito troféu de 3º na faixa, depois me agradeceu pelo alerta de sprint, pois o 109º era da sua faixa.

Após um bom alongamento fui fazer uma caminhada e parei um pouco antes da última curva para finalmente dizer sem mentir "já está chegando" e muitos me agradeceram. Ali percebi o valor dos que chegam com mais de quatro horas de prova, o sol já estava impiedoso e acredito que tudo já tinha piorado, o asfalto, o ar, a água, o trânsito, até a linha de chegada já estava vazia e fiz questão de ficar lá aplaudindo esses teimosos que nunca desistem, bando de malucos que resolvem fazer uma maratona numa serra, a estes atletas meus sinceros parabéns, respeito e admiração.

Um prêmio especial foi poder aplaudir os amigos aqui do fórum, Teles, Ivo Cantor e o Rlucena, e também ver a alegria da Rita com o seu lindo troféu.

Assim foi a maratona das águas para mim, existem mais 314 histórias verdadeiras de como foi esta mesma maratona.

Quem por acaso estiver a procura de dados técnicos sobre a prova poderá encontrar mais na mensagem 364-172 e outras subseqüentes, do debate "Maratona das águas/2004 treino e dicas".


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Crédito:
Texto copyright © por
Ronaldo Miguel da Silva, pára-quedista do Exército, técnico de enfermagem do Hospital Escolar da AMAN, Resende/RJ, de onde sempre recebeu grande apoio e faz questão de representá-lo em suas provas.

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