Maratona das Águas, um desafio inesquecível
por
Fernando Fragoso

Fernando Fragoso compartilha sua experiência na Maratona das Águas de 2003, um desafio inesquecível tanto pela beleza, quanto pela dificuldade do percurso.


Correr 42 km, cruzando cinco cidades do Circuito das Águas Paulista: Amparo, Monte Alegre do Sul, Serra Negra, Lindóia e Águas de Lindóia. O desafio tem nome: Maratona das Águas. A primeira edição do evento reuniu cerca de 320 pessoas, dispostas a suar e enfrentar as belas serras da região. Montanhas, sol forte na cabeça e muita determinação. Após três meses de treinamento, lá estava eu, sabendo que seria uma prova dura. A largada aconteceu no Jardim Público de Amparo, às 08:00 h, no último domingo, dia 23. Logo já corríamos na estrada. O desafio estava começando, melhor concentrar, melhor controlar o ritmo, pensei. Pela altimetria do percurso, era subir até o km 23, descer até o km 35 e subir novamente até a chegada, completando os 42.195 m.

Nas primeiras curvas, uma certeza: apesar das dificuldades (inclinação do trajeto), seria a maratona mais bonita que até então participara. Como a característica da prova não é favorável para a obtenção de recordes, minha meta era completar a distância inteiro, "descansado". Segui num ritmo confortável, curtindo o belo visual e conversando com alguns corredores que se aproximavam. Neste trecho inicial, soldados do exército faziam a segurança dos atletas, monitorando o trânsito de veículos, distribuindo água e segurando as placas com a marcação dos quilômetros. Concentração, uma palavra que não saía da minha cabeça. Monte Alegre do Sul estava próxima.

O calçamento central da cidade é de paralelepípedo, exigindo atenção para não torcer o pé. Logo apareceu a primeira "grande subida". Entre os km 13 e 18, uma serrinha brava, bem íngreme. Administrando energias, suplementando com BCAA e carboidrato em gel, venci esta etapa. Alguns preferiram - ou precisaram - caminhar, foi pauleira. Passei por um atleta que carregava um terço na mão (fé), outro protestava com palavras contra a guerra na camiseta. Um pit stop para esvaziar a bexiga, e dá-lhe sol. Reflexão sobre a vida e superação. Estava tudo sob controle. Nosso próximo destino era Serra Negra.

Achei interessante o contraste entre o verde das estradas e o visual urbano das cidades. Mudava completamente, pessoas incentivando, prédios. Vi que alguns corredores foram até um bar e voltaram com uma lata de Coca-Cola, outros procuravam por banheiros. Passei pela meia-maratona - 21,1 km - com 02:07 h. Estava dentro do tempo previsto e resolvi que manteria o mesmo ritmo até o final da prova. Deixei Serra Negra ao som de Pink Floyd, numa versão desafinada, vinda de um encontro de motoqueiros, rumo ao ponto mais alto do percurso (km 23), com 1.002 m.

Agora era só descida, descanso para o corpo e um perigo para as pernas. Neste trecho houve falhas no controle de trânsito - às vezes precisei correr no acostamento - e notei a falta de água em um posto de abastecimento. Uma única vez. A beleza da região compensava o calor e a solidão, mas era preciso monitorar cada passada, como ensina Ken Glah, experiente Ironman. Estava tão concentrado, que nada me chamou a atenção. Segui até o km 34, atravessei Lindóia, e me preparei para o "grand finale", entre os km 35 e 39. Algo para testar os limites.

Uma curva, outra curva e a ladeira das trevas não ameniza. Vamos em frente. Uma puta subida, talvez a mais longa e cruel que já enfrentei. O calor aumenta e o desgaste também. Corri sem problemas até o km 38, mas a esta altura (ou naquela altura) já me perguntava se devia continuar correndo ou seria melhor caminhar. Pouco antes do km 39 resolvi andar, precisava economizar forças. De repente, senti vontade de vomitar e não pensei duas vezes. Foi-se o PowerGel com Gatorade que arrotava há alguns minutos. Apesar da situação, estava me sentindo bem. Foi exaustão, conclui. Voltei a correr.

Fernando Fragoso na Maratona das Águas - Foto de Osmar Netto

Passei pelo km 40, Águas de Lindóia seria minha última parada. E agora? Perdi cerca de 5 minutos. Nunca tinha acontecido, andar ou vomitar. Faltavam apenas 2,195 km para completar a dura maratona e eu preocupado com o tempo. Besteira. Levantei a cabeça, me concentrei e aumentei o ritmo. Estava fazendo o melhor possível e isto me conformou. Cruzei a linha de chegada com 04:18:11 h. Sem dor ou sofrimento. O desafio foi cumprido. O resultado, conseqüência de meses de dedicação. Inesquecível.

Parciais:

10 km - 01:00:02 h
21 km - 02:07:16 h
30 km - 02:59:18 h
40 km - 04:05:24 h
42 km - 04:18:11 h


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Fernando Fragoso, 25, repórter esportivo, fotógrafo e navegador de rally, participou de mais de 60 provas como Rally dos Sertões (97, 99 e 2000), Mitsubishi Motorsports (98 e 2000), Copa Dunas de Rally (99), Copa Vale Raid (99) e Copa Sudeste de Off Road (96, 97, 98 e 99), navegando para 12 pilotos - velocidade e regularidade. Também percorreu de bicicleta o litoral de Santa Catarina (94), correu a Maratona de São Paulo (2002) e Maratona de Curitiba (2002), além de cobrir as principais competições. É editor do site e sócio da RALLYBRASIL ( www.rallybrasil.com.br ).

Créditos:
Texto copyright © por Fernando Fragoso, Foto © por Osmar Netto

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