Ultramaratona por mares e montanhas
por Rodolfo Lucena

Rodolfo Lucena relata sua experiência na Two Oceans Marathon, realizada na África do Sul em 30 de março de 2002, na qual correu 56 km e tornou-se Ultra!


O primeiro desafio que um novato na Two Oceans Marathon precisa enfrentar é encontrar o lugar da largada. Sem conhecer nada da bela Cidade do Cabo, desembarquei às 5h no Centro de Esportes da Universidade de Cape Town, onde tinha pegado meu número e onde seria a chegada. Estavam prometidos ônibus para levar os corredores até a largada, mas não os vi. Sem procurar por outra orientação, segui o fluxo de atletas, já meio nervoso.

A largada fica a cerca de três quilômetros do final do percurso, e a preocupação de ir logo ao ponto certo, no meio da escuridão, pelo menos tirou outros nervosismos da cabeça.

Depois de uma caminhada de uns 20 minutos, vimos - minha esposa, Eleonora, estava comigo - a concentração. Aí foi só achar o meu potreiro, o "E", com corredores que completaram maratonas em menos de 4h10, e esperar o tiro da largada.

Havia nervosismo no ar, mas a multidão de quase 10 mil pessoas estava organizada, sem empurra-empurra. Faltando segundos para as 6h, a multidão se movimenta ao som de "Carruagens de Fogo". Na escuridão, partimos.

Meu primeiro compromisso, discutido longamente com meu técnico, Claudio Castilho, da Saúde&Performance, era me controlar no quilômetro inicial. Estava descansado, depois de uma semana de treinos levíssimos, e as pernas queriam chão. O povo sai a toda, é difícil não tentar seguir. Mas a energia tem de ser contida para durar seis horas ou mais.

Passei o primeiro com quase sete minutos, e só então respirei, fui soltando, sabia que ia poder controlar o ritmo. Pouco tempo depois, já vejo a turma de voluntários no primeiro posto de abastecimento.

São duas marcas dessa corrida fantástica pela beleza e pela organização: voluntários animados e abastecimento perfeito, em grande quantidade e a intervalos bem pequenos.

Pouco antes das 7h, surgem os primeiros raios de sol, a lua ainda alta no céu limpo, de poucas nuvens. Indicam um dia mais quente que os precedentes, mas vamo-que-vamo.

No início, o trajeto é praticamente plano, com algumas subidas longas e leves (algo que lembra a Sumaré, por exemplo). Seguimos pelos subúrbios da cidade e logo, com pouco mais de uma hora de prova, já vemos ao longe as montanhas.

Por volta do km 14, avistamos o Índico, que ronca em ondas baixas e rápidas à nossa esquerda. Entre a pista e a praia, trilhos de trem. 

A primeira montanha, bela e assustadora, surge à frente. Mas não vamos subir, apenas rodeamos o morro pelo lado, num percurso ainda de leve movimentação.

Por enquanto, tudo é alegria e bom humor entre os corredores. Alguns fazem provocações a conhecidos, outro saúda o povo que assiste, um terceiro se gaba do tempo que promete fazer... Muitos puxam conversa comigo, querendo saber de onde sou (no meu número está marcado, em amarelo, "international"). Quando falo Brasil, é aquela festa: Ronaldo, seleção, Carnaval...

Noto que um bom grupo dos corredores que estavam mais ou menos próximos, quando largamos, continuam por ali. Significa que realmente estamos numa mesma balada, ritmada.

A marca da meia-maratona, pouco mais de um terço do percurso, vem provar isso: passo em 2h04, pouca coisa mais rápido que 6min/km. Continuo perto dos mesmos: dois corredores de Durban, de camiseta branca e rosa-choque, um trio de verde e branco, duas moças da Suíça, um sujeito que disse ter parentes em São Paulo. Há ainda alguns menos conversadores, como Christine, uma senhora de cerca de 60 anos que já fez várias vezes a Two Oceans em menos de 4h30 _um galardão de pano com seu número permanente impresso em letras prateadas demonstra isso. Há também um veterano de 12 Comrades e outras tantas Two Oceans, que ostenta uma enorme pena na cabeça.

O sol, depois das 9h30, já faz a gente suar mais, apesar de o tempo ainda estar relativamente fresco, com uma boa brisa. Daqui a pouco, no km 25, vai começar o trecho mais duro. Ele vem sendo antecedido, desde o 19, por leves ondulações, que parecem estar ali para preparar panturrilhas e quadríceps para o que vem pela frente.

Agora é seguir morro acima, pela estrada que serpenteia em curvas seguidas, cada vez parecendo ter uma inclinação maior; em alguns trechos, o leito da estrada é bem inclinado, exigindo que o corredor fique bem no canto para não forçar demais apenas um dos lados do corpo, caminho certo para a chegada de dor antes do tempo.

A subida e o calor crescente vão derrubando minha média. Meu esforço é seguir numa balada só -até para manter firme o ânimo. Numa curva, bate o vento forte, eu sinto o pescoço reagir, lembro a dificuldade que tive em outra prova de montanhas, em Big Sur, Califórnia, parece que vem torcicolo...

Mas é só susto, a ventania também passa rápido, fica o tempo quente. Quase no topo, aparecem de novo os caras de Durban. "Brasileiro, vou te passar", provoca um deles. "À vontade", respondo eu, rindo por fora e me mordendo por dentro.

Two Oceans Marathon

No alto da montanha, depois de subir 315 metros ao longo de oito quilômetros (o equivalente a mais de quatro Brigadeiros), paro: pela primeira vez na ultra dos Dois Oceanos, o Atlântico está à vista. Faço umas fotos e me largo morro abaixo, pensando que nos próximos cinco quilômetros de descida posso recuperar o terreno perdido.

Essa idéia é um erro, percebo em pouco tempo. Acelerar muito mais que meu ritmo, mesmo que o coração não se agite, vai acabar fazendo com que a musculatura reclame. O negócio é apertar um pouco, mas sem abrir demais a passada, controlando: já passamos da metade da prova, mas ainda há mais de 20 km pela frente.

De qualquer jeito, a aceleração é suficiente para emparelhar de novo com os caras de Durban e passar por eles em silêncio. Nunca mais os vi.

Do final da longa descida até a marca dos 42,2 km, enfrentamos um trecho de boa ondulação, que vai, agora sim, batendo firme na musculatura. Sinto-me menos cansado do que estaria em uma maratona, mas sei que o tempo vem caindo: passo em 4h24min02, média de 6min13/km, conforme registra o segundo controle eletrônico (o primeiro foi na meia-ultra, aos 28 km, que passei com 2h41min49, média de 6min04/km).

Agora é que começa a ultramaratona. Na preparação, fiz vários longos de mais de 30 km, um treino de quatro horas, outro de cinco, mas agora é para valer. Se quiser ganhar medalha de bronze, preciso completar os 14 km que faltam em até 1h36 (os dez primeiros levam ouro, quem faz em até 4h30, prata, quem passa das 6h, azul).

Calculo, calculo, sinto o sol, lembro que o fundamental é ir até o fim, mas talvez dê, quem sabe. Abro a passada e sinto uma puxada na panturrilha esquerda. Não é nada, mas ameaça câimbra. Decido segurar: meu objetivo é terminar inteiro, correndo, em condições de festejar com a Eleonora. E, afinal, para um gremista, nada melhor que medalha azul.

Agora, de novo, o trajeto é o falso plano. Pequenas subidas, leves, curtas; descidas também assim-assim, e os quadríceps começam a gritar. Fico de novo pensando nos treinos, agradeço ao Ronaldo, o professor de musculação, pelas planilhas cheias de leg press, mesa flexora, cadeira romana, gêmeos de pé e outros exercícios de fortalecimento das pernas. Sem eles a jornada seria muito mais dura, talvez nem terminasse.

Os quadríceps reclamam, mas resistem, assim como as panturrilhas e, de resto, eu inteiro. Depois do km 45, caminho um pouco a cada dois, três quilômetros, pego cada vez mais água nos postos de abastecimento, molho a cabeça, a nuca, as coxas.

É uma tentação passar pelas estações de fisioterapia, montadas a intervalos de três ou quatro quilômetros, depois do 35. Os atletas ficam lá atirados no chão, sendo atendidos por massagistas, fazendo alongamento assistido, recebendo frutas e outras mamatas. Dá muita vontade de parar...

Mas, se parar, eu fico, e aí não vai dar certo. O jeito é se entusiasmar com os gritos de incentivo dos espectadores, que, agora, mais perto da cidade, já são em número bem maior. Alguns gritam meu nome, que levo escrito na camiseta, e o melhor jeito de agradecer é correr, correr, correr.

Rodolfo Mostra o seu trófeu da Two Ocenas Marathon

Mais de 11h30, vou buscando a sombra das árvores ao longo do caminho. Nem sempre dá, e quando ficamos em campo aberto o calor é grande, deve estar perto dos 30 graus. Às vezes, vejo um ou outro corredor no canto da estrada, botando os bofes para fora.

Eu sigo. Uma descida, uma reta, uma curva, passo do 55. Agora é ir: vem uma subidinha, caminho um pouco, um sujeito que está assistindo pergunta se eu quero ajuda, corre um pouco ao meu lado, eu levanto a cabeça e vou embora. No topo, já vejo a entrada do campo de futebol onde está montado o brete de chegada, onde o público se acotovela aplaudindo quem chega, esteja se arrastando ou correndo.

Eu corro e entro gritando "Brasil!", eles gritam também, aplaudem forte, faltam menos de 200 metros, vou gritando, passo mais uns que se arrastam, vejo a Eleonora bem perto da linha de chegada e cruzo.

Já passa do meio-dia. Corri por 6h12min25. Sou ultra.

FIM


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Créditos:
Texto copyright © por
Rodolfo Lucena. Fotos copyright © 2002 por Eleonora Lucena.
Rodolfo Lucena é editor do blog + corrida e autor do livro Maratonando.


Estatísticas

O vencedor da Two Oceans Marathon foi o sul-africano Hlonepha (Simon) Mphulanyana, com 3h09min42, seguido por Lucketz Swartbooi, da Namíbia, com 3h09min53, e Willie Mtolo, da África do Sul, com 3h12min22.

No feminino, venceu a russa Natalia Volgina, que cravou 3h38min02; a sul-africana Gwen van Lingen chegou 3min40 depois, seguida por Alena Vinitskaya, da Bielo-Rússia, que completou em 3h45min28.

No total, começaram a prova 12.490 corredores. Dos 7.250 que se inscreveram na ultra, 6.290 terminaram; dos 5.240 que participaram da meia-maratona, 4.206 completaram a prova, segundo informa a diretora da prova, Carol Sowray.

Eu fiz em 6h12min25, tempo oficial -o marcado no meu cronômetro foi 6h11min02-, ficando no lugar 4.872 entre 6.668 corredores (vejam que há discrepância entre os números da diretora de prova e os da ChampionChip, que estou usando agora). Entre os homens, fui 4.082 em 5.435, e na faixa etária, 1.411 de 1.958.

Cheguei à metade do percurso em 2h49min41, com média de 6min04/km; na marca da maratona, cravei 4h24min02, caindo a velocidade média, no trecho entre os 28 km e os 42,2 km, para 6min39/km. Os 16 quilômetros finais fiz em lerda 1h48min24, com média de 7min51/km. A velocida média geral foi de 6min39/km.

O interessante é que, tudo bem, minha velocidade caiu, como era de esperar. Mas os outros tiveram um desempenho pior, indicam os números, pois minha posição relativa melhora: na marca dos 28 km, estava no lugar 5.339, passando para 4.773 na maratona e caindo um pouco para ficar no posto 4.872 no final.

Todos os dados estatísticos estão no site da Championchip. Os meus estão aqui.

Ao longo do período de treinamento, contando a partir de 15 de outubro de 2001, corri 1.582 km (inclui a Two Oceans).


Leia cobertura mais detalhada, inclusive com informações a respeito dos treinos e da preparação para a prova, no site www.geocities.com/doisoceanos

Veja também mais informações sobre a prova e os resultados das últimas edições em https://www.twooceansmarathon.org.za

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