Desafio Praias e Trilhas 2005
por
José Carlos Angst

José Carlos Angst narra a sua grande aventura de completar o Desafio de Praia e Trilhas, prova de 82 km em dois dias por variados terrenos em Florianópolis.

Sexta-feira, por volta do meio-dia, estou no aeroporto de Florianópolis. Vim para participar do 4° Desafio Praias e Trilhas, uma competição feita em dois dias totalizando um percurso de 82 km, realizada anualmente em outubro. Vi alguns atletas em uma van, tentei um lugar, mas já estava lotada, peguei um táxi, acabamos chegando juntos ao hotel. 

A maioria dos atletas que participam da prova ficam hospedados no mesmo hotel, o que permite um conhecimento e uma troca de experiências muito interessante. Em uma de minhas corridas de rua, ouvi de um corredor que os atletas têm sempre uma boa conversa. Comprovei isso mais uma vez nesta ocasião durante o almoço e o jantar.

Sábado, acordei diversas vezes durante a madrugada, finalmente às 4:30 tocou o telefone, era o serviço despertador que eu havia solicitado no dia anterior. Levantei, segui minhas anotações de providências para a prova: 
1) equipamento: tênis, meias, calção e camiseta, previamente testados em treino; 
2) proteção: filtro solar, hipogloss, boné; 
3) abastecimento: mochila com 1L de água, apito, cobertor térmico, atadura, esparadrapo, 6 exceeds (gel);

5:00 cheguei no restaurante para o café da manhã pronto para a largada, olhei em volta, acho que só eu tive a idéia de tomar o café vestido para prova.

5:30 o ônibus parte com destino a largada, somos levados do hotel para o ponto de largada no extremo sul da ilha, a viagem dura aproximadamente 50 minutos.

Antes da largada a equipe organizadora verifica, individualmente, o material obrigatório e faz a pesagem do atleta, ao final desta primeira etapa é feita outra pesagem para avaliação.
O local de largada é uma pequena escola, usamos as salas de aula para a pesagem, a quadra de esportes para um aquecimento/alongamento e os quadros nas paredes (feitos pelos pequenos alunos) para um relaxamento.

7:30 Largada, temperatura amena, tempo nublado, os primeiros quilômetros em rodovia asfaltada, até agora parece mais uma corrida de rua, sigo no pelotão intermediário. 
Ao chegar na trilha começo a perceber que a prova tem características muito peculiares, os atletas formam uma grande fila indiana, é impossível correr ao lado de alguém, na trilha há espaço somente para um atleta. 

As trilhas usadas para subir e descer dos morros, em sua maioria são de terra e areia envolta pela vegetação, pelos espinhos, pelas pedras e pelas árvores. Parte delas estão localizadas bem próximos a despenhadeiros, perigo iminente. Trechos molhados pela chuva ou pelos pequenos córregos que descem pela encosta, tornam-se bastante escorregadios.

Quedas nas trilhas são comuns, quase inevitáveis e fáceis de perceber, pois os atletas estão bastante próximos, quando não as vimos, escutamos o barulho. E a minha não tardou a acontecer, vi em minha frente uma poça de lama, tentei pisar na vegetação lateral e escorreguei, estendi os braços e segurei nos arbustos da encosta, tudo bem, desci pouco, logo estou na trilha novamente e com a atenção redobrada. Subidas enlameadas, pedras escorregadias, braços abertos para manter o equilíbrio, mãos arranhadas pelas pedras e pelos arbustos, usados como apoio para subir e descer nas trilhas.

A sinalização usada pela organização da prova foi muito boa, estava bem visível, errei o caminho apenas duas vezes, mas logo percebi e voltei, apenas falta de atenção minha.

Primeiro posto de abastecimento de água, o tempo por quilômetro nesta prova é único, não tenho parâmetros para compará-lo com outras provas, apenas vejo que ainda estou entre vários atletas. Tenho usado a água da mochila poucas vezes, por isso, não reabasteci. 

Seguimos em frente, mais trilhas, mesmas trilhas, e ainda trilhas. Lá pelo km 15 um pouco de areia, comecei a sentir o corpo pesado, procurei a vegetação buscando um piso mais duro sem sucesso, segui pela areia próximo ao mar, areia, água, tênis molhado com barro e areia. Não pensei que fosse gostar de entrar na próxima trilha, mas gostei. Tirei o tênis e as meias tentando limpa-los, usei as pedras para isso. Porém, alguns metros a frente, numa trilha enlameada, afundei novamente os tênis, paciência, aceitei este desafio, não devia esperar trilha asfaltada. 

Nesta parte de trilhas as pernas devem ser ajudadas pelos braços e pelo tronco, o corpo deve trabalhar em conjunto, o que conta muito também é o equilíbrio, a encosta dá uma impressão errada do ponto de equilíbrio do corpo, associado ao vento, é fácil perder o equilíbrio. A cada perda de equilíbrio, agachava, buscava o contato com a mão e seguia descendo ou subindo.

Passamos pelos postos de abastecimento, nestas vezes completei a água da mochila, comi frutas, bolacha salgada, bebi isotônico. Os abastecimentos foram ótimos, as pessoas nos atendiam muito gentilmente, o que me tranqüilizava para continuar a prova.

Mais trilhas, praias, trilhas, praias e finalmente a informação do pessoal de apoio que a primeira etapa estava terminando, uns trezentos metros a minha frente uma faixa de sinalização marcava a entrada do hotel onde estávamos hospedados e onde se encontrava o pórtico de chegada. Olhei o relógio, 5:45:54, gostei. Na chegada, uma medalha pela primeira etapa, antes de beber ou comer, nova pesagem, perdi 2.8Kg, (78.3 - 75.5).

Bebi isotônico, coca-cola, comi bolacha salgada, melancia, banana e laranja. Satisfeito, fui para o meu apartamento tomar um banho, ao subir um lance de escadas, senti o esforço, os músculos das pernas estavam doendo. 

Banho tomado, roupa limpa e seca, fui almoçar. Durante o almoço a boa conversa sobre o primeiro dia de prova, parte do desafio cumprido. Muitos atletas participaram mais de uma vez deste desafio, alguns todos, e eu me perguntava se com tanto desgaste eu seria capaz de repetir. Depois do almoço já tinha uma relação parcial da classificação dos atletas, o vencedor do ano anterior e recordista da prova, que não estava liderando, avisou: - Amanhã vou alcançar e ainda por mais de vinte minutos de diferença no segundo colocado. Dito e feito! Parabéns.

Dia longo, no hotel, a tarde, assisti futebol na TV, dormi e acordei para o jantar. As dores nos músculos diminuíram, jantei e demorei um pouco para dormir. 

4:30 Serviço despertador. Resolvi acordar cedo para arrumar minhas coisas pois deixaríamos o hotel, a chegada do segundo dia seria no próximo hotel. Segui a mesma lista de providências do primeiro dia, desisti de usar o segundo par de tênis, naquelas trilhas, areias e pedras, vou me sentir mais seguro no mesmo par de tênis de ontem, apesar de estar molhado. Resolvi mudar a camiseta, vou usar a camiseta do evento pois tem mangas e protegem melhor do sol. Próximos 45km com previsão de tempo bom, mais quente que no primeiro dia, abusem do filtro solar, não esqueçam o boné e boa sorte, foi a recomendação antes da largada.

7:00 Largada do segundo dia. Saímos do hotel direto pela praia, a areia estava mais dura que no primeiro dia, pelo menos nos primeiros quilômetros. Seguimos pela praia, encontramos algumas dunas, trilhas, areia, pedras, praia novamente. Quando cheguei no km 21 estava mesmo cansado, as pernas doíam, principalmente a parte externa da canela direita, tomei água, abasteci a mochila que estava sem água. Segui em frente e, para minha satisfação, era uma estrada de terra batida, minha primeira providência foi tirar a areia do tênis e da meia, em seguida comecei a trotar, comecei a sentir mais dores na canela direita.

Acho que foram pouco mais de cinco quilômetros na estrada, não trotei mais do que três, caminhei, o que se seguiu foram mais areia, dunas, trilhas, pedras nas encostas. Nestas trilhas ao subir e descer, acho que não forçava a lesão na canela, sentia poucas dores.
Um pouco antes do Km 38, senti que a assadura entre as coxas havia piorado, na praia, ergui a perna e olhei, tinha bastante sangue, um veranista que estava na praia me viu e ofereceu óleo, agradeci e falei que estava chegando no posto de abastecimento (km38).

Fui muito bem atendido, logo ao chegar, um bombeiro amarrou uma atadura na minha perna com largos esparadrapos e deixou bem fixa, um rapaz da equipe de apoio viu a cena e falou: "Tu és um guerreiro mesmo!"; Se a intenção dele era me dar força, conseguiu, esqueci de que estava a mais de oito horas deste domingo tentando completar somente 45 Km, me convenci de que estava bem, me alimentei, agradeci e segui em frente.

Durante a escalada nos costões entre a praia Brava e Lagoinha, no meio das pedras, no alto, perto da encosta, encontramos, um cachorro. Não sei como o cachorro foi parar lá, eu fazia o maior esforço para conseguir passar entre as pedras sozinho, imagina levar o cachorro. O atleta que estava logo a minha frente quis saltar algumas pedras com o cachorro para tirá-lo de lá, mas ficou só na intenção. Uma queda daquelas pedras resultaria em contusão certa.

Para mim este foi um dos trechos mais difíceis, estava com dores na perna, o tempo passava muito rápido, as trilhas enlameadas, as pedras, parei por um instante e senti a mesma sensação de quando era criança, havia subido demais na árvore e estava com medo de descer, queria era estar lá embaixo sem ter que descer. Segui, logo encontrei outro atleta com problemas, perguntei como estava e ele disse que estava sentindo a perna e que só terminaria para dar satisfação ao patrocinador. Acho que estava com mais dores do que eu, andamos junto por algum tempo, passei e segui em frente, estava próximo da chegada.

Na última trilha uma sensação de alívio, caminho tranqüilo, no caminho alguns veranistas, no final da trilha algumas pedras, pequenas e fáceis de ultrapassar. Enfim praia, não vi o pórtico de chegada, perguntei ao rapaz com a camiseta do evento que estava na praia se estava longe do final: - a 300m, atrás daquele barco grande. Lembrei da frase do atleta que havia me ultrapassado antes da última trilha: - Parabéns você conseguiu!

300m, minha primeira providência é dar um jeito de chegar, pelo menos trotando, respirei fundo, olhei a atadura, ainda estava lá, firmei a perna doída enquanto caminhava, segui um pouco à direita e estava lá, a chegada, comecei a trotar.

A recepção foi muito legal, o pessoal da organização dando a maior força, o locutor informado o nome, e eu, esqueci do resto, acho que passei correndo pela chegada.

Durante o percurso comentei com outro atleta que a prova era muito dura e que não a faria de novo. Passados alguns dias continuo afirmando que a prova é dura, não tenho nenhuma razão para participar novamente, exceto uma: - Posso fazer melhor.


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Créditos:
Texto copyright © por José Carlos Angst

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