Comrades 2007
por Ely Behar

Ely Behar relata como superou os 89 km da Comrades e os Big Five, que são os grandes Morros, uma alusão aos 5 mais respeitados animais africanos : Polly Shortts, Inchanga, Botha’s Hill, Fields Hill e Cowie’s Hill. 

SHOSHOLOZA
“Avançar, superar os obstáculos – expressão zulu”

São 5:15h am, faltam apenas 15 minutos para a largada da 82ª Comrades, largando de Pietermaritzburg para Durban, sentido descida (downhill), quando começou a tocar a música Zulu Shosholoza, muito silêncio e ansiedade pela largada, em seguida uma breve saudação dos organizadores, início da música Carruagem de Fogo e o famoso Canto do Galo seguido do tiro oficial de largada. 

Assim, começava minha Comrades, na qual estava participando pela segunda vez, mas sendo a primeira vez no sentido descida. Desde o começo estava muito concentrado e calmo, claro que a expectativa era muito grande, mas queria viver cada metro de forma consciente e sem extrapolar para que não sofresse no final. O percurso de descida é muito traiçoeiro, pois são 56km de descida, o que pode parecer fácil, mas conforme os quilômetros vão acumulando-se, o corpo passa a sofrer muito mais, principalmente os joelhos, devido ao esforço de “brecar” o corpo na descida. 

Mesmo no downhill é necessário o respeito pelas Big Five, que são os grandes Morros, uma alusão aos 5 mais respeitados animais africanos : Polly Shortts, Inchanga, Botha’s Hill, Fields Hill e Cowie’s Hill. 

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Estava muito frio na largada, por volta de 6oC e todo o cuidado era pouco para aquecer o corpo nos primeiros 20km, sendo que já após 8 km enfrentei a primeira grande descida que é a Polly Shortts, sempre com a preocupação de manter meu ritmo constante e monitorando o tempo para conseguir completar abaixo de 9h, que era meu objetivo otimista. Ao completar esta longa descida, já era possível observar os primeiros raios de sol aparecendo e clareando o percurso, mas o frio ainda era muito intenso.

Meu corpo estava respondendo bem, mesmo a minha preocupação com meu joelho esquerdo estava sob controle, apesar de uma dor leve, nada muito forte. A corrida estava transcorrendo bem, o sol já tinha firmado e a temperatura começou a subir, para minha alegria, assim já pude começar a liberar peso, tirando meu moleton e dando-o para uma criança que estava na beira da estrada assistindo a corrida. Neste exato momento, percebo um “ônibus” (grupo de corredores liderados por um marcador de ritmo para chegar em um determinado horário) passando por mim, mal começou a corrida e o sub-9 já vinha pedindo espaço, no momento até sai um pouco da minha corrida, mas deixei-o passar e continuei na minha estratégia, pois apesar de estar um pouco mais lento, estava no máximo uns 4 minutos acima do tempo para completar abaixo de 9 h, até aí nenhum problema para compensar na segunda metade da corrida, que diziam ser com mais descida ainda.

Várias pequenas subidas e fortes descidas, já estava chegando no km 30 quando chegou Inchanga, este é um momento muito intenso da corrida, pois no sentido de subida é um divisor de águas, devido sua imponência e distância, mas no sentido de descida é traiçoeiro, pois tem uma forte descida, mais uma seqüência muito íngreme e longa de subidas, enganando pelo fato de muitos corredores não respeitarem e só correrem por estarem descansados, já que ainda estamos apenas completando 1/3 da corrida. Eu preferi ser mais conservador e andei durante 3 minutos para poupar o máximo de energia para o final. O que ajuda muito é que tem muita festa nos postos de abastecimentos, principalmente neste trecho.

Apesar de manter meu ritmo, sinto que meu corpo já estava começando a sentir o esforço um pouco mais cedo que o normal, pois já estava chegando no Halfway, ou seja, na metade da corrida, estava a mais de 10 minutos além do meu tempo previsto e para piorar, assim que cruzei a metade, o “ônibus sub-10” passou por mim, achei muito estranho ainda pelo fato que pelo meus cálculos cruzei o halfway 11 minutos acima do tempo ideal para o sub-9, então procurei focar-me totalmente na minha corrida e aceitar que independente do resultado meu objetivo não era o tempo que iria conseguir e sim tudo que estava vivenciando, o momento, a experiência de simplesmente viver o presente, sentir cada passada como se fosse única.

Logo em seguida, já estava passando pelo famoso Arthur’s seat e aproveitei para deixar uma flor e dizer em alto e bom tom : Good Morning Arthur, que é uma tradição da Comrades e com isto conseguir uma benção deste famoso corredor. Nem mesmo passei pelo Arthur’s seat, já pude avistar o Wall of Honour, um grande muro com várias pedras com o nome de diversos corredores que já completaram de forma honrosa a Comrades e meu nome já estava lá, foi uma sensação muito única e energizadora, pois eternamente farei parte da História da Comrades.

O terceiro e temido Botha’s Hill já aproximava-se e nos momentos de subida já vinha alternando corrida com caminhada, mas sempre de forma cronometrada para impedir que meu corpo ficasse relaxado de mais para voltar a correr, mas respeitando-o o suficiente para que mantivesse minhas energias equilibradas para completar a corrida. 
Vários corredores sul-africanos passavam por mim e me agradeciam por estar correndo no país deles, era muito mais que um cumprimento formal, mas um gesto de muito carinho e consideração, realmente nobre e que mostrava o quanto respeitam nós corredores internacionais que temos que abrir mão de várias coisas e de nosso tempo para poder estar vivenciando uma corrida em um lugar tão distante como a África do Sul.

Já próximo do km 60, tinha certeza que apesar de ainda ser possível chegar abaixo de 9h, sabia que teria que forçar muito meu corpo, podendo colocá-lo em um fadiga muito grande para continuar meus treinamentos em seguida, além do risco de uma lesão. Mesmo com este pensamento e consciência sabia que meu corpo dava sinais claros que já tinha absorvido todas as dores e cansaço, possibilitando que puxasse mais o ritmo e avançasse de forma firme e segura. Comecei a concentrar-me totalmente, buscando não interagir muito com o público e sim vivenciar o meu silêncio e meus conselheiros, digo conselheiros, pois neste momento escutava a voz de todos dizendo para ir adiante, continuar a correr e, principalmente, não focar-me no sofrimento. Este era um sofrimento positivo, um esforço seguido do forte impacto durante as descidas que fazia as pernas e os músculos fadigarem cada vez mais. Sentia cada vez mais uma forte força, puxando-me para correr, correr de forma livre, como estivesse num campo aberto de abraços abertos e totalmente livre, uma sensação única e intensa. Já sentia os quilômetros passando, sem preocupação e controle, não estava focado neles e sim na minha corrida, nos meus pensamentos, que apesar de estar num vazio, na verdade estava em contato comigo de uma forma muito profunda, serena e plena. 

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Fui avançando e passando por centenas e centenas de corredores, já que nas descidas íngremes e subidas, quase que a maioria já alternava caminhada e corrida, mas eu conseguia só correr e correr, estava mais forte do que nunca. Por volta do km 65 passei pelo ônibus sub-10 e fui embora não tive nem tempo de curtir um pouco a animação do mesmo, apenas passei, admirei com todo respeito e parti para enfrentar o quarto grande morro que é o Fields Hill, a sua imensa descida que parece um grande alívio, na verdade é um grande perigo, pois não é um ponto para recuperar o tempo e sim gerenciar a energia que ainda resta, se houver. Apesar de todas precauções, não tive dúvida em apertar o ritmo, algo dentro de mim dizia para não ter medo e que meu corpo estava preparado para este sofrimento, assim fui correndo e correndo muito, mesmo com o risco calculado de ter que “pagar” por isto mais na frente quando viesse o último morro : Cowies Hill.

O Cowies Hill representa o ponto de exaustão da corrida, pois tem se a vista da cidade de Durban, mas ainda faltam 18 km para conclusão da prova. Neste momento, só me lembro que perguntei para um corredor se ainda faltava algum Big Five pela frente e disse que era o último, mas que ainda haviam subidas pela frente, nem sei o motivo da minha pergunta, talvez por estar um pouco deslocado do percurso e concentrado nos meus pensamentos. No momento que entrei na estrada final, faltando apenas 12 km só lembro todas as palavras do Ricardo Arap (meu mestre e treinador) sobre o desafio e a importância de darmos um passo adiante e o quanto estava agradecido por ter tido a oportunidade de estar correndo naquele momento, daquela forma e intensidade. Foram 7 km seguidos que fiquei extremamente emocionando, chorando de alegria e prazer, estava realizado mesmo sem ter completado ainda a prova, mas tinha conseguido me apropriar de cada momento, cada quilômetro e, principalmente, de cada situação que passei e me fez amadurecer para que conseguisse estar correndo sem estar preso a um objetivo mensurável e sujeito a comparações. 

Aproximando-me do km 84, já estava praticamente entrando na cidade e de peito estufado, com o orgulho de um verdadeiro Comrades aguardando a minha coroação, fruto de minha dedicação, garra, amor e determinação, cada voz ecoada pelo público impulsionando e parabenizando-me por esta conquista. Assim que entro na cidade após alguns metros avisto a reta final que dará lugar ao grande Estádio imponente, com milhares de pessoas aguardando os bravos guerreiros. Acabo de passar pela marcação do último quilômetro, muitas palmas e aproveito para hastear minha pequena bandeira, mas coloco-a no peito, pois antes de tudo sou brasileiro e não de forma patriota, mas sim representando todos os 49 brasileiros que participaram e dedicaram-se durante vários meses para estarem participando deste grande desafio. Assim que avisto a entrada do Estádio, a emoção é muito grande, chegou o grande momento, piso na grama e logo pego a grande bandeira brasileira com o meu amigo Nato e faço questão de hasteá-la bem alta e berrar diversas vezes Brasil, Brasil, Brasil e cruzar da forma mais digna possível a linha de chegada, após exatas 9h37min de corrida !

Foram 1.248 km percorridos desde janeiro até cruzar a linha chegada, alguns treinos com muita dor outros com muita alegria, momentos de certeza e outros de dúvidas, mas o mais importante de tudo é que reencontrei o meu caminho. Este caminho que é permeado com o que temos de mais nobre na vida : A VONTADE, desejo este de ir sempre além e que nos faz despertar e manter-nos sempre caminhando e evoluindo por esta longa estrada que chama-se VIDA.

Finalizando, gostaria de parabenizar os 49 guerreiros e guerreiras brasileiros que participaram bravamente da Comrades, tornando o Brasil o 2º maior grupo dentre os 42 países participantes :
Paulo Lacerda, Adauto Paiva, Marcelo Rodrigues, Sérgio Quaresma, Ariovaldo Branco, Marcos Hofig, Wilson Bonfim, Eduardo Rodrigues, Samuel Toledo, Nato Amaral, Alexandre Oliveira, Gilmar Ost, Ana Márcia Ost, André Arruda, Cadu Zahaan, Edson Bittencourt, Ederaldo Telles Filho, Maria Bernardino, Margaret Cullura, Jorge Luiz, João Prestes, Tânia Alves, Aurélio Zancopé, José Carlos da Silva Marques, Tatiana Cremonini, Paulo Vieira Souza, Fábio Brandão, Wagner Ricca, Ana Maria de Queiroz, Fabrício Menezes dos Santos, Cleiber Lobo, Antenor Sakamoto, Tomaz Lourenço, Regina Gastaldo, Agnaldo Oliveira, Paulo de Almeida, Maria Eugênia Sahagoff, José Silva, Fernando Alves, Amaury Braga, Rodolfo Nascimento, Roberto Rodrigues, Eduardo Brunetti, Anderson da Silva Marques, Cheng Guimarães, José Mendes Ferrão, Schosiro Shibata e Paulo Bonet ! 

Agradeço especialmente meu amigo Nato que compartilhou comigo alguns treinos em plena selva e deserto africano, fato realmente inédito !

Obrigado e um forte beijo no coração de todos que participaram direta e indiretamente deste meu grande desafio e de toda minha preparação ao longo do ano, em especial para minha namorada Michele que está sempre ao meu lado !

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Créditos:
Texto copyright © por Ely Behar.
Ely Behar é diretor da marca Brooks Running no Brasil. A Brooks acompanhou os brasileiros em mais este grande desafio. No dia 17 de junho, o Brasil foi representado por 49 atletas em uma das ultra-maratonas mais difíceis do mundo. A maioria deles tinha Brooks nos pés, oferecidos aos inscritos durante um evento inédito promovido pela marca antes da corrida, onde ultra-maratonistas contaram suas experiências em edições anteriores da Comrades e deram dicas de preparação e de como superar o percurso de 89km, incentivando os estreantes.

Informações:
Renata Freire
Assistente de Assessoria de Imprensa 
Rua General Furtado Nascimento, 740
Cj. 61 a 64 Alto de Pinheiros São Paulo 
Telefone 55 11 3026 9224 
Celular 55 12 9147 5962 
www.d-aonline.com.br

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