Obesos produzem menos hormônio da fome

 

Balança - CDC

Um grupo de cientistas de duas universidades dos Estados Unidos acaba de fazer uma descoberta surpreendente para entender os mecanismos que regulam o apetite e ajudar no desenvolvimento de novos tratamentos para obesidade. O estudo, publicado na edição de 29 de junho da revista Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS), foi liderado pelo brasileiro Julio Licinio, professor da Escola de Medicina David Geffen, da Universidade de Califórnia em Los Angeles (UCLA). 

Os pesquisadores descobriram que, durante a noite, pessoas magras secretam grandes quantidades de grelina, um hormônio que estimula a fome. A grelina ajuda o organismo a controlar o peso como parte de um complexo sistema que regula a ingestão de alimentos e o consumo de energia. O estudo verificou que indivíduos obesos, pelo contrário, não experimentam tal elevação no nível no hormônio. 

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“Achávamos que pessoas obesas deveriam ter padrões diferentes de grelina, mas a surpresa foi ver que isso ocorre principalmente à noite”, disse Licinio à Agência FAPESP. “Os resultados obtidos podem parecer contraditórios, uma vez que seria esperado que os níveis do hormônio deveriam ser maiores nesses indivíduos.” Uma explicação, segundo o cientista, é que algo pode estar cancelando a produção do hormônio da fome nos mais obesos. 

Licinio acredita que a descoberta pode auxiliar na descoberta de novas pistas para o tratamento da obesidade. “É possível que indivíduos obesos tenham desenvolvido mecanismos biológicos que os tornam resistentes a seus próprios hormônios. Precisamos tentar decifrar esse mistério para desenvolver medicamentos que os tornem mais sensíveis a seus próprios sinais internos”, disse. 

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Células no estômago secretam grelina no sangue, onde a quantidade de hormônio varia durante o dia, aumentando antes das refeições e diminuindo após a pessoa ter se alimentado. A equipe de Licinio monitorou os padrões de grelina em dez homens, cinco magros e cinco obesos, a cada sete minutos durante 24 horas. Foram coletados mais de 200 amostras de sangue por voluntário. 

Os pesquisadores se surpreenderam ao identificar um grande aumento do hormônio nos indivíduos magros entre meia-noite a seis da manhã, em nível tão elevado que superou os valores encontrados antes das refeições. Nos voluntários obesos, os níveis permaneceram praticamente constantes.

“As mais fortes variações dos níveis de grelina estavam ausentes nos homens obesos, sugerindo que seus sistemas regulatórios deixaram de funcionar corretamente. Isso vai contra o estereótipo das pessoas acima do peso normal que acordam no meio da noite para atacar a geladeira”, disse Licinio. 

Os cientistas, quatro da UCLA e um da Universidade do Estado da Louisiana, também monitoraram os níveis de leptina e de adiponectina, dois hormônios produzidos por células adiposas. O primeiro produz a sensação de saciação, indicando o momento de parar de comer. O outro ajuda a regular o metabolismo energético. 

Junto com os baixos níveis de grelina, os indivíduos obesos mostraram, em relação aos mais magros, quantidades mais altas de leptina e mais baixas de adiponectina. “Novamente, isso vai contra o que se costumava achar. Seria de se esperar que pessoas obesas tivessem níveis menores de leptina, não maiores”, afirmou Licinio. 

Os voluntários tinham entre 21 e 25 anos, eram não-fumantes e estavam em boas condições físicas, além de não terem tido perdas ou ganhos recentes de peso. Também não ingeriram qualquer medicamento ou suplemento dietético nos 30 dias antes da pesquisa. O cientista brasileiro explica que o próximo passo de seu grupo será o estudo com mulheres e com pessoas que sentem compulsão alimentar noturna. 

Julio Licinio, que vive nos Estados Unidos desde 1984, é professor de psiquiatria, medicina e endocrinologia, além de dirigir o Centro de Farmacologia Clínica e o Programa de Treinamento de Graduação em Investigação Translacional da UCLA. É diretor associado do Centro de Pesquisas Clínicas e co-diretor do Laboratório de Farmacogenômica da mesma universidade. 

Graduou-se em medicina pela Universidade Federal da Bahia, tendo prosseguido a formação acadêmica na Universidade de São Paulo e na Universidade de Chicago, passando em seguida pelo Centro Médico Cornell e pelo Instituto Nacional para Saúde Mental, ambos nos Estados Unidos. É fundador e editor dos periódicos The Pharmacogenomics Journal e Molecular Psychiatry, ambos do grupo Nature.
Fonte: Heitor Shimizu - Agência Fapesp.

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