Farmacologia dos organismos marinhos

Instituições de pesquisa como o Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo (IB/USP) e o Centro de Toxinologia Aplicada (CAT) do Instituto Butantan estão há bastante tempo no rastro de organismos marinhos que possam conter substâncias importantes para as pesquisas farmacológicas. Muitas delas não apenas foram identificadas como até resultaram em pedidos de patentes. Apesar disso, esse grande universo é ainda quase totalmente desconhecido.

“Este ano foi criada a Rede Nacional em Biotecnologia de Macroalgas Marinhas, que vem ressaltar o grande potencial biotecnológico das algas, envolvendo a exploração para a indústria de alimentos, farmacêutica e de cosméticos”, disse José Carlos de Freitas, professor titular do IB/USP, à Agência FAPESP.

O também pesquisador do CAT, um dos Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão (Cepids) da FAPESP, não está detalhando apenas as substâncias do universo das algas em seu laboratório. Um dos focos principais neste momento está sendo jogado diretamente sobre os moluscos marinhos.

“Na costa brasileira ocorrem várias espécies de moluscos, como o Conus regius, que vive nas águas do arquipélago de Fernando de Noronha (PE). Nossa linha de pesquisa é uma das primeiras sobre o animal no litoral brasileiro”, explica Freitas.

Fora do Brasil, com estudos feitos com outras espécies do mesmo gênero, já existem toxinas sendo comercializadas para o combate à dor. “Indústrias farmacêuticas receberam US$ 4 milhões dos Institutos Nacionais da Saúde, nos Estados Unidos para desenvolver medicamentos com base na ômega-conotoxina de Conus magus do oceano pacifico”, disse Freitas. Segundo o pesquisador, essa substância bloqueia o influxo de cálcio nos terminais neuronais e impede a neurotransmissão, e a dor, quando aplicado topicamente nesses sítios do sistema nervoso.

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Fonte de novos remédios

O Conus regius é o tema da tese de doutorado que será apresentada pela bióloga Maria Braga na semana que vem, na USP. O grupo de moluscos peçonhentos que está sob análise pode conter substâncias importantes para o combate da dor crônica, em doenças como o câncer e a Aids.

O trabalho representa um ponto inicial na caracterização de várias toxinas, segundo José Carlos de Freitas. “Precisamos continuar a pesquisa com esse e com outros gêneros de animais marinhos do Brasil, já que seus coquetéis de toxinas podem vir a ser fontes de novos fármacos e de novas drogas”, afirma.

O Conus regius também será tratado na última semana de agosto pelo filipino Baldomero Oliveira, da Universidade de Utah, nos Estados Unidos. Ele será um dos convidados do Congresso Brasileiro de Farmacologia e Terapêutica Experimental, marcado para Águas de Lindóia (SP). O evento, entre os dias 24 e 27, faz parte da programação da Reunião Anual da Federação das Sociedades de Biologia Experimental (Fesbe).

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Atividade antiinflamatória

Outra descoberta obtida pela equipe de José Carlos de Freitas comprova uma das sabedorias populares registradas nas praias brasileiras. “No extrato orgânico da planta Ipomoea imperati, coletada em ambientes praianos, encontramos atividade antiinflamatória tópica e inibidora de uma enzima envolvida no processo inflamatório, além de atividade antiespasmódica”, explica o pesquisador.

Desde a década de 1970, as pesquisas com animais marinhos demonstraram a existência de atividade hemolítica, citotóxica, neurotóxica, paralisante neuromuscular e cardiotóxica nas substâncias isoladas. O intervalo entre esse isolamento e o eventual uso clínico costuma ter, no mínimo, uns 15 anos.

No caso do AZT, por exemplo, remédio básico usado para o tratamento da Aids, essa travessia já ocorreu. O remédio contém derivados sintéticos da espongouridina e da espongotimidina, substâncias isoladas de esponjas nos anos 50.
Fonte: Eduardo Geraque, Agencia Fapesp, 10/08/2005.

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